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Archive for dezembro \30\UTC 2009

“Corrigir os indisciplinados, confortar os pusilânimes, amparar os fracos, refutar os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprovação aos bons, tolerar o maus e [ai de mim!] amar a todos”. – SANTO AGOSTINHO

dezembro 30, 2009 Deixe um comentário
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Entrevista: Dom Mauro Gagliardi- As mudanças na liturgia introduzidas por Bento XVI

dezembro 22, 2009 1 comentário

Por ZENIT.org 

– Ao ler o artigo de Luigi Accattoli, “O rito do silêncio segundo o Papa Ratzinger” (Liberal, 1° de dezembro, 2009, p. 10), fica evidente a ideia de um certo esforço, solicitado pelo próprio Papa, para tornar a liturgia papal mais alinhada à tradição. Como nos aproximamos do tempo das celebrações solenes das festas natalinas, que serão presididas em São Pedro por Bento XVI, gostaríamos de aproveitar a ocasião para falar destas alterações.

– Gagliardi: O artigo de Accattoli apresenta um panorama geral das alterações mais visíveis em matéria de liturgia pontifícia, embora haja outras, que talvez não tenham sido mencionadas por razões de espaço, ou porque são de compreensão mais difícil por parte do público em geral. Como enfatiza esse estimado vaticanista, tais alterações são iniciativa do próprio Santo Padre, o qual, como se sabe, é especialista em liturgia.

– Accattoli inicia seu artigo mencionando as vestes papais que caíram em desuso nas últimas décadas: o camauro, o saturno vermelho, a mozeta. Menciona também as mudanças referentes ao pálio.

– Gagliardi: Trata-se de elementos das vestes próprias do Pontífice, como também a cor vermelha dos calçados, não mencionada explicitamente pelo autor. Se é verdade que nas últimas décadas os Sumos Pontífices têm optado por não fazer uso destes itens, também é verdade que jamais foram abolidos, e portanto qualquer Papa os pode usar. Não se pode esquecer que, assim como a maior parte dos demais elementos visíveis na liturgia, também as vestes de uso extra-litúrgico atendem a necessidades práticas e simbólicas. Lembro-me que quando o Papa Bento XVI usou pela primeira vez o camauro, um gorro de inverno eficaz contra o frio, um jornal italiano publicou uma foto do sorridente Santo Padre, portando sobre a cabeça o camauro, com a legenda “e fez muito bem!”, referindo-se ao fato de que o Papa também tem o direito de se proteger do frio. Mas as razões para usá-lo não são apenas práticas. Não podemos nos esquecer quem é e qual é o papel da pessoa que faz uso dessas vestes: por isso, elas têm também um significado simbólico, que é expresso por meio de sua beleza e sua aparência magnânima.

Ao contrário, o pálio é um indumento litúrgico. João Paulo II usava um igual aos usados pelos metropolitas. No início do pontificado de Bento XVI, havia sido preparado um de feitio diferente, que retomava estilos antigos e que foi usado pelo Santo Padre por algum tempo.

Na sequência de um estudo meticuloso, percebeu-se que seria mais adequado voltar à forma utilizada por João Paulo II, ainda que com pequenas modificações que destacassem as diferenças do pálio usado pelos metropolitas daquele usado pelo Papa.

– O que pode ser dito da férula papal escolhida por Bento XVI em substituição ao crucifixo confeccionado por Scorzelli, utilizado por Paulo VI, João Paulo I e II e pelo próprio Bento XVI no início de seu pontificado?

– Gagliardi: Pode-se dizer que também aqui vale o mesmo princípio. Pode-se mencionar uma razão prática: a férula utilizada atualmente por Bento XVI pesa 590 gramas a menos que o crucifixo de Scorzelli, o que não é pouco. Além disso, em termos históricos, a férula em forma de cruz corresponde mais fielmente àquela típica da tradição romana, que sempre foi em formato de cruz e desprovida de crucifixo. Podemos, finalmente, mencionar razões de caráter simbólico e estético.

Accattoli também cita outras mudanças, que podemos definir com mais substância: os cuidados nos momentos de silêncio, a celebração voltada para o crucifixo, e a comunhão, administrada sobre a língua aos fies de joelhos.

– Gagliardi: Estes são elementos de significado profundo, que obviamente não pode ser analisado aqui em detalhes. O Institutio Generalis do Missal Romano publicado por Paulo VI estabelece preocupações que devem ser observadas durante o sacro silêncio. A atenção dada a esse aspecto na liturgia papal, portanto, não faz mais do que colocar em prática as normas estabelecidas.

Com relação à celebração voltada para o crucifixo, vemos que por norma o Santo Padre mantém o posicionamento ao altar chamado de “voltado para o povo”. Apenas em poucas ocasiões celebrou voltado para o crucifixo. Como toda celebração da Missa, qualquer que seja a posição física do celebrante, é voltada para o Pai através de Cristo no Espírito Santo e nunca voltada “para o povo”, não admira que quem celebre a Eucaristia possa estar voltado também fisicamente “em direção ao Senhor”.

No que diz respeito, finalmente, ao modo de distribuir a Santa Comunhão aos fiéis, é preciso distinguir o aspecto de recebê-la sobre a língua daquele de recebê-la de joelhos. Na atual forma ordinária do Rito Romano (ou Missal de Paulo VI), os fiéis têm o direito de receber a Comunhão tanto de pé quanto de joelhos. Se o Santo Padre estabeleceu conferi-la de joelhos, penso – obviamente esta é apenas minha opinião pessoal – que ele considere esta posição mais adequada para expressar o sentimento de adoração que devemos sempre cultivar ao receber o dom da Eucaristia.

Na Sacramentum Caritatis, citando Santo Agostinho, o Papa lembrou que, ao receber o Pão Eucarístico, devemos adorá-lo, porque não adorando incorreríamos em pecado. Antes de distribuir a Comunhão, o próprio sacerdote realiza a genuflexão diante da Hóstia; porque não ajudar os fiéis a cultivar esse sentimento de adoração por meio do mesmo gesto?

No que diz respeito a receber a Comunhão sobre a mão, deve-se lembrar que essa prática é hoje possível em muitos lugares (possível, mas não obrigatória), mas permanece uma concessão, uma vez que a norma ordinária estabelece que a Comunhão é recebida somente sobre a língua.

Esta concessão foi feita às Conferências Episcopais que a requisitaram, e não partiu da Santa Sé promovê-la. Portanto, nenhum bispo membro de uma Conferência Episcopal que tenha requisitado e obtido essa licença está obrigado a aplicá-la em sua diocese; cada bispo tem liberdade para decidir aplicar a norma universal, que permanece vigente apesar de todas as licenças concedidas, e que estabelece que os fiéis devem receber a Santa Comunhão sobre a língua.

Assim, é importante que o próprio Santo Padre mantenha a regra tradicional, confirmada mais uma vez por Paulo VI, que proíbe os fiéis de receberem a comunhão sobre a mão.

– Em conclusão, qual sentido vê nas novidades introduzidas na liturgia papal no pontificado de Bento XVI?

– Gagliardi: Naturalmente, posso apenas expressar minhas opiniões pessoais, que não representam oficialmente a posição do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Me parece que o que se está tentando fazer é conciliar sabiamente coisas novas com coisas antigas, seguindo, ao máximo possível, as indicações do Vaticano II, e de agir de modo que as celebrações pontifícias sejam exemplares em todos os aspectos. Quem participa da liturgia papal deve poder dizer “é assim que se faz! É assim que devemos fazer em nossas dioceses e paróquias!”

Gostaria, ainda, de destacar que estas novidades não foram introduzidas de modo autoritário. Pode-se notar que foram frequentemente explicadas, por exemplo, na série de entrevistas concedidas pelo mestre de celebrações litúrgicas do sumo pontífice aoL’Osservatore Romano e outros veículos de comunicação. Também nós, consultores, publicamos, de tempos em tempos, artigos sobre o cotidiano da Santa Sé, a fim de explicar o significado histórico e teológico das decisões tomadas. Para usar uma palavra que está na moda, diria que há um modo “democrático” de proceder, significando com isso não que as decisões sejam tomadas em função da maioria, mas no sentido de que sempre se busca fazer compreender os motivos profundos que levaram às mudanças, os quais são sempre de caráter histórico, teológico ou litúrgico, e nunca meramente estético ou muito menos ideológico. Pode-se dizer que há um esforço permanente de tornar clara a ratio legis, e isso também representa uma “novidade” importante.

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Prioriadade da igreja nos tempos de hoje segundo o Bento XVI…

dezembro 21, 2009 Deixe um comentário

“No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado… Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo”.

Bento XVI

10/03/2009

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Terceira meditação de Advento.Padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., a Bento XVI e seus colaboradores da Cúria Romana, na capela “Redemptoris Mater”, no Vaticano.

dezembro 19, 2009 Deixe um comentário

Maria, mãe e modelo do sacerdote

Na carta a todos os sacerdotes com ocasião da Quinta-Feira Santa de 1979, a primeira da série do seu pontificado, João Paulo II escreveu: “Há no nosso sacerdócio «ministerial» a dimensão estupenda e penetrante da proximidade da Mãe de Cristo”. Nesta última meditação do Advento, gostaríamos de refletir precisamente sobre esta proximidade entre Maria e o sacerdote.

De Maria não se fala com muita frequência no Novo Testamento. No entanto, se prestarmos atenção, notamos que ela não está ausente em nenhum dos três momentos constitutivos do mistério cristão, que são: a Encarnação, o Mistério Pascal e o Pentecostes. Maria estava presente na Encarnação, porque ocorreu nela, estava presente no mistério pascal, porque está escrito que: “perto da cruz de Jesus estava Maria sua mãe” (cf. Jo 19, 25); esteve presente no dia de Pentecostes, pois está escrito que os apóstolos “perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres — entre elas, Maria, mãe de Jesus” (Cf. At 1, 14).

Cada uma destas três presenças revela algo da misteriosa proximidade entre Maria e o sacerdote, mas encontrando-nos na iminência do Natal, gostaria de limitar-me à primeira delas, aquilo que Maria diz do sacerdote e ao sacerdote no mistério da Encarnação.

1. Qual a relação entre Maria e o sacerdote?

Quero primeiramente mencionar a questão do título de sacerdote atribuído à Virgem na tradição. Um escritor do fim do século V chama Maria “Virgem e ao mesmo tempo sacerdote e altar onde se deu Cristo pão do céu para a remissão dos pecados” [1]. Depois dele, são frequentes as referências ao tema de Maria sacerdote, que tornou-se o objeto da observação teológico somente no século XVII, a escola francesa de São Sulpício. Nessa, o sacerdócio de Maria não se colocou tanto em relação com o sacerdócio ministerial como com o de Cristo.

No final do século XIX, espalhou-se uma verdadeira devoção à Virgem-sacerdote e São Pio X concedeu uma indulgência também à relativa prática. Mas quando se viu o perigo de confundir o sacerdócio de Maria com o ministerial, o Magistério da Igreja tornou-se reticente, e dois discursos do Santo Ofício colocaram praticamente fim a tal devoção [2].

Depois o Concílio continua a falar do sacerdócio de Maria, mas não vinculando-o ao sacerdócio ministerial, nem àquele supremo de Cristo, mas ao sacerdócio universal dos fiéis: ela possuía a título pessoal, como figura e primícias da Igreja, “o sacerdócio régio”(1 Pe 2, 9) que todos os batizados possuem a título coletivo.

Que podemos dizer dessa longa tradição que associa Maria ao sacerdote e da proximidade da qual fala João Paulo II? Continua a ser, ao meu ver, a analogia ou a correspondência dos planos, no interior do mistério da salvação. Aquilo que Maria foi no nível da realidade histórica, de uma vez por todas, o sacerdote o é cada vez que retorna ao plano da realidade sacramental.

Nesse sentido, podemos compreender as palavras de Paulo VI: “Qual é a relação e quais as distinções que há entre a maternidade de Maria, feita universal pela dignidade e caridade da posição atribuída por Deus no plano da Redenção, e o sacerdócio apostólico, constituído pelo Senhor para ser instrumento de comunicação entre Deus e os homens?

Maria dá Cristo à humanidade; e também o sacerdócio da Cristo à humanidade, mas de um modo diverso, como é claro; Maria mediante a Encarnação e mediante a efusão da graça, da que Deus a preencheu; o Sacerdócio através do poder da Ordem sacra [3].

A analogia entre Maria e o sacerdote pode-se exprimir assim. Maria, pela obra do Espírito Santo, concebeu Cristo e, depois dê-lo nutrido e alimentado em seu seio, deu-o à luz em Belém; o sacerdote, ungido e consagrado pelo Espírito Santo na ordenação, é chamado também ele a preencher-se de Cristo para poder dá-lo à luz e fazê-lo nascer nas almas através do anúncio da Palavra, da administração dos sacramentos.

Nesse sentido, a relação entre Maria e o sacerdote tem uma longa tradição atrás de si, muito mais autorizada do que a de Maria-sacerdote. Tomando um pensamento de Agostinho, o Concílio Vaticano II escreve: “a Igreja… toma-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da palavra de Deus: efectivamente, pela pregação e pelo Baptismo, gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por ação do Espírito Santo e nascidos de Deus” [5].

O batistério, diziam os Padres, é o seio no qual a Igreja dá à luz os seus filhos e a Palavra de Deus é o leite puro que os alimenta: “O pródigo místico! Um é o Pai de todos, um também o Verbo de todos, um e idêntico por todas as partes é o Espírito Santo e única é a Virgem Mãe: assim eu amo chamar a Igreja. Pura como uma virgem, amável como uma mãe, reunindo os seus filhos, alimenta-os com o leite sagrado que é a palavra às crianças depois do nascimento (cf. 1 Pd 2, 2) [6].

O beato Isaac de Estella, em uma página que lemos no ofício de leitura de sábado passado, fez uma síntese desta tradição: “Maria e a Igreja, escreve, são uma mãe e muitas mães, uma virgem e muitas virgens. Uma e outra mãe, Uma e outra virgem. Uma e outra concebida sem concupiscência pelo próprio Espírito; uma e outra dão a Deus Pai a prole sem pecado. Aquela, sem pecado algum, deu ao corpo a Cabeça; esta, na remissão de todos os pecados, dá o corpo à Cabeça” [7].

O que é dito nesses textos se diz da Igreja como um todo, como sacramento de salvação, deve-se aplicar de uma forma especial aos sacerdotes, porque, ministerialmente, são estes que, na prática, geram Cristo nas almas mediante a palavra e os sacramentos.

2. Maria acreditou

Até agora, a analogia entre Maria e o sacerdote esteve sobre o plano, por assim dizer, objetivo, ou graça. Mas há também uma analogia no plano subjetivo, ou seja, entre a contribuição pessoal que a Virgem deu à graça da eleição e a contribuição que o sacerdote é chamado a dar à graça da ordenação. Nenhum dos dois é um mero canal, que deixa passar a graça sem contribuir nada próprio.

Tertuliano fala de uma versão do docetismo gnóstico, segundo a qual Jesus nasceu, sim, de Maria, mas não concebido nela ou por ela; o corpo de Cristo, vindo do céu, teria passado pela Virgem, mas não gerado nela ou por ela; Maria teria sido um caminho para Jesus, não uma mãe, e Jesus para Maria um hóspede, e não um filho [8]. Para não se repetir essa forma de docentismo na sua vida, o sacerdote não pode limitar-se a transmitir aos outros um Cristo aprendido dos livros que não se fez primeiro carne da sua carne e sangue do seu sangue. Como Maria (a imagem é de São Bernardo), eles devem ser um reservatório que transborda do que está preenchido, não um canal que se limita a fazer passar água sem reter nada.

A contribuição pessoal, comum a Maria e ao sacerdote, resume-se na fé. Maria, escreve Agostinho, “pela fé concebeu e pela fé deu à luz” (fide concepit, fide peperit) [9]; também o sacerdote, pela fé leva Cristo em seu coração e mediante a fé o comunica aos demais. Será o centro da meditação de hoje: que o sacerdote pode aprender da fé de Maria.

Quando Maria foi visitar Isabel, esta a acolheu com grande alegria, e “cheia do Espírito Santo” exclamou: “feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!” (Lc 1, 45). Não há dúvida de que este ter acreditado refere-se à resposta de Maria ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc 1, 38).

À primeira vista, parece que o ato de fé de Maria foi fácil, inclusive evidente. Converter-se em mãe de um rei que teria reinado para sempre sobre a casa de Jacó, mãe do Messias! Não era o que sonhava toda jovem judia? Mas este é um modo de pensar sumamente humano, carnal. Maria encontra-se em solidão total. A quem pode contar o que aconteceu com ela? Quem acreditará quando disser que o menino que leva no seu seio é “obra do Espírito Santo”? Isso não havia sucedido a ninguém antes e não acontecerá tampouco depois. Maria conhecia certamente o que estava escrito no livro da lei, quer dizer, que se a jovem, no momento do casamento, não era virgem, devia ser expulsa pela porta da casa do pai e apedrejada pelas pessoas do povoado (Cf. Deuteronômio 22, 20 s). Nós falamos de diariamente do risco da fé, entendendo por isso geralmente o risco intelectual, mas no caso de Maria tratava-se de um risco real!

Carlo Carretto, em seu livreto sobre a Virgem, conta como chegou a descobrir a fé de Maria. Quando vivia no deserto, tinha sabido por alguns amigos tuaregs que uma jovem do acampamento tinha sido dada como prometida a um jovem, mas que não tinha ido viver com ele, pois era muito jovem. Relacionou este fato com o que Lucas diz sobre Maria. Por este motivo, ao regressar depois de dois anos por aquele acampamento, perguntou pela jovem. Constatou um certo mal-estar entre seus interlocutores e, depois, um deles, aproximando-se, fez-lhe um sinal: passou a mão na garganta com um gesto característico dos árabes quando querem dizer: “vão lhe cortar a cabeça”. Estava grávida antes do casamento e a honra da família exigia acabar com ela. Então voltou a pensar em Maria, nos olhares sem piedade das pessoas de Nazaré, compreendeu a solidão de Maria, e nessa mesma noite a escolheu como companheira de viagem e como mestra de sua fé [10]. 

Deus não tira nunca de suas criaturas seu consentimento, escondendo-lhes as consequências, o que terão de enfrentar. Vemos isso em todos os chamados de Deus. Jeremias preanuncia, “te farão a guerra” (1, 19), e diz-se a Ananis sobre Saulo “pois eu vou lhe mostrar o quanto ele deve sofrer pelo meu nome” (At 9, 16). Poderia atuar de outra maneira com Maria, com uma missão como a dela? Com a luz do Espírito Santo, que acompanha o chamado de Deus, certamente vislumbrou que seu caminho não seria diferente do restante dos que são chamados. De fato, Simeão muito rápido expressará este pressentimento, quando lhe dirá que uma espada atravessaria sua alma. 

Um escritor moderno, Erri De Luca, descreveu de maneira poética este pensamento de Maria no momento do nascimento de Jesus. Está sozinha, na gruta; José vela do lado de fora (segundo a lei, nenhum homem pode assistir ao parto). Acaba de dar à luz seu filho, quando curiosos pensamentos se amontoam em sua mente: “Por que, filho meu, nasces precisamente aqui, em Bet-Lehem, Casa do Pão? E por que temos de chamar-te de Ieshu?… Faz que este estremecimento da coluna vertebral, este calafrio do futuro fique longe dele”. A mãe pressagia que o filho será arrebatado, então diz a si mesma: “Até a primeira luz, Ieshu é só meu. Quero cantar uma canção com estas três palavras e basta. Esta noite, aqui em Bet Lehem, é só meu”. E com estas palavras aproxima-o do peito para amamentá-lo [11]. 

Maria é a única que acreditou “de maneira contemporânea”, quer dizer, enquanto sucedia o fato, antes de toda confirmação e de toda convalidação pela parte dos acontecimentos da história [8]. Jesus diz a Tomé: “Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!” (Jo 20, 29): Maria é a primeira dos que creram ser ter visto.

São Paulo diz que Deus ama quem dá com alegria (2 Cor 9, 7) e Maria pronunciou seu “sim” a Deus com alegria. O verbo com o que Maria expressa seu consentimento, e que é traduzido como “fiat”, ou “faça-se”, no original, encontra-se no optativo (génoito), um modo verbal que em grego se usa para exprimir o desejo e inclusive a gozosa impaciência de que algo aconteça. Como se a Virgem dissesse: “Eu também desejo, com todo meu ser, o que Deus deseja; que se cumpra o que ele quer”. Na verdade, como dizia Santa Agostinho, antes que em seu corpo, ela concebeu a Cristo em seu coração.

Mas Maria não disse “fiat”, pois não falava latim, e nem “génoito”, que é palavra grega. Que coisa disse então? Qual é a palavra que, no idioma falado por Maria, corresponde melhor a esta expressão? Quando queria dizer a Deus “sim, assim seja”, um judeu dizia “amém”. Se é lícito tentar remontar-se, com uma reflexão de fé, à mesmíssima palavra, à palavra exata que saiu dos lábios de Maria, ou ao menos à palavra que existia na fonte judaica usada por Lucas, esta deve ser precisamente a palavra “amém”. Acaso os salmos na Vulgata latina não terminavam com a expressão: “fiat, fiat”? O texto grego dos Setenta, neste caso, diz “génoito, génoito”, e no original hebraico conhecido por Maria aparece “amém, amém”.

Amém é uma palavra hebraica, cuja raiz significa solidez, certeza; era utilizada na liturgia como resposta de fé à Palavra de Deus. Com o amém se reconhece o que nos foi dito com uma palavra firme, estável, válida e vinculante. Sua tradição exata, quando é uma resposta à Palavra de Deus, é esta: “Assim é e que assim seja”. Indica fé e obediência ao mesmo tempo; reconhece que o que Deus diz é verdade e se submete. É dizer “sim” a Deus. Neste sentido, aparece nos próprios lábios de Jesus. “Sim, amém, Pai, pois assim foi do teu agrado…” (Mt 11, 26). É mais, Ele é o Amém personificado: “Assim fala o Amém…” (Ap 3, 14) e, através dele, qualquer outro “amém” de fé pronunciado na terra já se eleva a Deus (cf Cor 1, 20). Também Maria, depois do Filho, é o amém a Deus feito pessoa.

A fé de Maria é portanto um ato de amor e de docilidade, livre, ainda que suscitado por Deus, misterioso como misterioso é cada vez o encontro entre a graça e a liberdade. Esta é a verdadeira grandeza pessoal de Maria, sua bem-aventurança, confirmada pelo próprio Cristo: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram” (Lc 11, 27), diz uma mulher no Evangelho. A mulher proclama que Maria é bem-aventurada porque levou Jesus; Isabel a proclama beata porque acreditou; a mulher proclama como uma bem-aventurança levar Jesus no seio, Jesus proclama bem-aventurado que o leva no coração: “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam”, responde Jesus. Deste modo, ajuda aquela mulher e a todos nós a compreender onde está a grandeza pessoal de sua Mãe. Quem “guardava” melhor as palavras de Deus que Maria, de quem a Escritura diz em duas ocasiões que “guardava todas estas coisas, e as meditava em seu coração”? (cf Lc 2 19, 51).

Não deveríamos terminar nossa contemplação da fé de Maria com a impressão de que Maria acreditou uma vez e nada mais em sua vida; que só se deu um grande ato de fé na vida da Virgem. Quantas vezes, depois da Anunciação, Maria foi martirizada pelo aparente contraste de sua situação com tudo o que estava escrito e conhecia sobre a vontade de Deus, no Antigo Testamento, e sobre a própria figura do Messias! O Concílio Vaticano II nos ofereceu um grande presente ao afirmar que também Maria caminhou na fé, e mais, avançou na fé, quer dizer, cresceu e se aperfeiçoou nela [12]. 

3. Acreditemos também nós!

Passemos agora de Maria ao sacerdote. Santo Agostinho escreveu: “Maria acreditou e nela o que acreditou se cumpriu. Acreditemos também nós para que o que se cumpriu nela possamos também nós aproveitar” [13]. Acreditemos também nós! Que a contemplação da fé de Maria nos leve a renovar perante todos o ato de fé e abandono a Deus.

Todos devem e podem imitar Maria em sua fé, mas de modo muito especial deve fazê-lo o sacerdote. “Meu justo – diz Deus – viverá pela fé (cf Habacuc 2, 4; Rm 1, 17): isto se aplica, em especial, ao sacerdote. Ele é o homem da fé. A fé é o que determina, por assim dizer, seu “peso específico” e a eficácia de seu ministério.

O que os fiéis captam imediatamente em um sacerdote, em um pastor, é se “crê”, se crê no que diz e no que celebra. Quem busca no sacerdote antes de tudo a Deus, se dá conta em seguida; que não busca nele a Deus, pode ser facilmente enganado e induzir a engano o próprio sacerdote, fazendo que se sinta importante, brilhante, ao ritmo da moda, quando na realidade é “bronze que soa e címbalo que retine”.

Inclusive quem não crê se aproxima do sacerdote com um espírito de busca, entende em seguida a diferença. O que o colocará saudavelmente em crise não são em geral as mais cultas discussões sobre a fé, mas encontrar-se perante alguém que crê verdadeiramente com todo seu ser. A fé é contagiosa. Alguém não se contagia só escutando falar dos vírus ou estudando-os, mas entrando em contato com ele: assim é a fé. 

Às vezes, sofre-se e inclusive se lamenta em oração com Deus, porque as pessoas abandonam a Igreja, não saem do pecado, porque falamos, falamos… e não acontece nada. Um dia, os apóstolos tentaram expulsar o demônio de um pobre jovem, mas sem conseguir. Depois de Jesus em pessoa expulsar o demônio do jovem, aproximaram-se de Jesus, retirando-se de lado, e perguntaram: “Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?” Ele respondeu: “Por causa da fraqueza de vossa fé” (Mt 17, 19-20).

São Boaventura relata como um dia, enquanto estava no monte da Verna, lhe veio à mente o que dizem os santos Padres, quer dizer, que a alma devota, pela graça do Espírito Santo e a força do Altíssimo, pode espiritualmente conceber pela fé o bendito Verbo do Pai, dá-lo à luz, dar-lhe nome, buscá-lo e adorá-lo com os Magos e finalmente apresentá-lo felizmente a Deus Pai em seu templo. Escreveu então um opúsculo intitulado “As cinco festas do Menino Jesus”, para mostrar como o cristão pode reviver em si cada um destes cinco momentos da vida de Jesus. Limito-me ao que Boaventura diz das duas primeiras festas, a concepção e o nascimento, aplicando-o em particular ao sacerdote.

O sacerdote concebe Jesus quando, descontente da vida que leva, estimulado por santas inspirações e acendendo-se de santo ardor, desapegando-se firmemente de seus velhos costumes e afetos, fica como fecundado espiritualmente pela graça do Espírito Santo e concebe o propósito de uma vida nova.

Uma vez concebido, o bendito Filho de Deus nasce no coração do sacerdote, quando, após ter feito um sadio discernimento, pedido um conselho oportuno, invocado a ajuda de Deus, põe imediatamente por obra seu santo propósito, começando a realizar o que desde tempos estava amadurecendo, mas que tinha sempre deixado por medo de não ser capaz. 

Este propósito de vida nova deve, no entanto, traduzir-se em seguida, sem vacilações, em algo concreto, em uma mudança, possivelmente também externa e visível, em nossa vida e em nossos costumes. Se o propósito não se realiza, Jesus é concebido, mas não é dado à luz. Será um de tantos abortos espirituais dos que infelizmente está cheio o mundo das almas. 

Há duas brevíssimas palavras que Maria pronunciou no momento da Anunciação e que o sacerdote pronuncia no momento de sua ordenação: “Aqui estou!” e “Amém”, ou “Sim”. Recordo o momento quando estava perante o altar para a ordenação com uma dezena de companheiros. Em um determinado momento, pronunciou-se meu nome, e eu respondi emocionadíssimo: “Aqui estou”. 

Ao longo do rito, foram-nos dirigidas algumas perguntas: “Queres exercer o ministério sacerdotal por toda vida?”, “Queres realizar digna e fielmente o ministério da palavra na pregação?”, “Queres celebrar com devoção e fidelidade os mistérios de Cristo?”. A cada pergunta, respondemos: “Sim, quero!”.

A renovação espiritual do sacerdócio católico, desejada pelo Santo Padre, será proporcional ao impulso com que cada um de nós, sacerdotes ou bispos da Igreja, formos capazes de pronunciar de novo um gozoso “Aqui estou!” e “Sim, quero!”, fazendo reviver a unção recebida na ordenação. Jesus entrou no mundo dizendo: “eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 7). Nós o acolhemos, neste Natal, com as mesmas palavras: “eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade!”

[Traduzido por Zenit]

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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI-DIA MUNDIAL DA PAZ

dezembro 16, 2009 Deixe um comentário

SE QUISERES CULTIVAR A PAZ, PRESERVA A CRIAÇÃO

1. Por ocasião do início do Ano Novo, desejo expressar os mais ardentes votos de paz a todas as comunidades cristãs, aos responsáveis das nações, aos homens e mulheres de boa vontade do mundo inteiro. Para este XLIII Dia Mundial da Paz, escolhi o tema: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus»[1]e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade. Com efeito, se são numerosos os perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante – guerras, conflitos internacionais e regionais, actos terroristas e violações dos direitos humanos –, não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu. Por isso, é indispensável que a humanidade renove e reforce «aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho».[2]

2. Na encíclica Caritas in veritate, pus em realce que o desenvolvimento humano integral está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural, considerado como uma dádiva de Deus para todos, cuja utilização comporta uma responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente os pobres e as gerações futuras. Assinalei também que corre o risco de atenuar-se, nas consciências, a noção da responsabilidade, quando a natureza e sobretudo o ser humano são considerados simplesmente como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo.[3] Pelo contrário, conceber a criação como dádiva de Deus à humanidade ajuda-nos a compreender a vocação e o valor do homem; na realidade, cheios de admiração, podemos proclamar com o salmista: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes?» (Sl 8, 4-5). Contemplar a beleza da criação é um estímulo para reconhecer o amor do Criador; aquele Amor que «move o sol e as outras estrelas».[4]

3. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus, temos com o universo que nos circunda. «Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza». E acrescentava que esta consciência ecológica «não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas».[5] Já outros meus predecessores se referiram à relação existente entre o homem e o ambiente; por exemplo, em 1971, por ocasião do octogésimo aniversário da encíclica Rerum novarum deLeão XIIIPaulo VI houve por bem sublinhar que, «por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação». E acrescentou que, deste modo, «não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável. Problema social de grande envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana».[6]

4. Embora evitando de intervir sobre soluções técnicas específicas, a Igreja, «perita em humanidade», tem a peito chamar vigorosamente a atenção para a relação entre o Criador, o ser humano e a criação. Em 1990, João Paulo II falava de «crise ecológica» e, realçando o carácter prevalecentemente ético de que a mesma se revestia, indicava «a urgente necessidade moral de uma nova solidariedade».[7] Hoje, com o proliferar de manifestações duma crise que seria irresponsável não tomar em séria consideração, tal apelo aparece ainda mais premente. Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenómeno crescente dos chamados «prófugos ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Com não reagir perante os conflitos, já em acto ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais? Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento.

5. Entretanto tenha-se na devida conta que não se pode avaliar a crise ecológica prescindindo das questões relacionadas com ela, nomeadamente o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação. Por isso, é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Exige-o o estado de saúde ecológica da terra; reclama-o também e sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte.[8] A humanidade tem necessidade de uma profunda renovação cultural; precisa de redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos. As situações de crise que está atravessando, de carácter económico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas. Elas obrigam a projectar de novo a estrada comum dos homens. Impõem, de maneira particular, um modo de viver marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso, apostando com confiança e coragem nas experiências positivas realizadas e rejeitando decididamente as negativas. É o único modo de fazer com que a crise actual se torne uma ocasião para discernimento e nova projectação.

6. Porventura não é verdade que, na origem daquela que em sentido cósmico chamamos «natureza», há «um desígnio de amor e de verdade»? O mundo «não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso, (…) procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do seu Ser, da sua sabedoria e da sua bondade».[9] Nas suas páginas iniciais, o livro do Génesis introduz-nos no projecto sapiente do cosmos, fruto do pensamento de Deus, que, no vértice, colocou o homem e a mulher, criados à imagem e semelhança do Criador, para «encher e dominar a terra» como «administradores» em nome do próprio Deus (cf. Gn 1, 28). A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. Em consequência, ficou deturpada também a tarefa de «dominar» a terra, de a «cultivar e guardar» e gerou-se um conflito entre eles e o resto da criação (cf. Gn 3, 17-19). O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus, e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. Mas o verdadeiro significado do mandamento primordial de Deus, bem evidenciado no livro do Génesis, não consistia numa simples concessão de autoridade, mas antes num apelo à responsabilidade. Aliás, a sabedoria dos antigos reconhecia que a natureza está à nossa disposição, mas não como «um monte de lixo espalhado ao acaso»,[10] enquanto a Revelação bíblica nos fez compreender que a natureza é dom do Criador, o Qual lhe traçou os ordenamentos intrínsecos a fim de que o homem pudesse deduzir deles as devidas orientações para a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2, 15).[11] Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição. E quando o homem, em vez de desempenhar a sua função de colaborador de Deus, se coloca no lugar de Deus, acaba por provocar a rebelião da natureza, «mais tiranizada que governada por ele».[12] O homem tem, portanto, o dever de exercer um governo responsável da criação, preservando-a e cultivando-a.[13]

7. Infelizmente temos de constatar que um grande número de pessoas, em vários países e regiões da terra, experimenta dificuldades cada vez maiores, porque muitos se descuidam ou se recusam a exercer sobre o ambiente um governo responsável. O Concílio Ecuménico Vaticano II lembrou que «Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos».[14] Por isso, a herança da criação pertence à humanidade inteira. Entretanto o ritmo actual de exploração põe seriamente em perigo a disponibilidade de alguns recursos naturais não só para a geração actual, mas sobretudo para as gerações futuras.[15] Ora não é difícil constatar como a degradação ambiental é muitas vezes o resultado da falta de projectos políticos clarividentes ou da persecução de míopes interesses económicos, que se transformam, infelizmente, numa séria ameaça para a criação. Para contrastar tal fenómeno, na certeza de que «cada decisão económica tem consequências de carácter moral»,[16] é necessário também que a actividade económica seja mais respeitadora do ambiente. Quando se lança mão dos recursos naturais, é preciso preocupar-se com a sua preservação prevendo também os seus custos em termos ambientais e sociais, que se devem contabilizar como uma parcela essencial da actividade económica. Compete à comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo. Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras.

8. Na realidade, é urgente a obtenção de uma leal solidariedade entre as gerações. Os custos resultantes do uso dos recursos ambientais comuns não podem ficar a cargo das gerações futuras. «Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever. Trata-se de uma responsabilidade que as gerações presentes têm em relação às futuras, uma responsabilidade que pertence também a cada um dos Estados e à comunidade internacional».[17] O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem consequências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros; que a tutela da propriedade privada não dificulte o destino universal dos bens;[18] que a intervenção do homem não comprometa a fecundidade da terra para benefício do dia de hoje e do amanhã. Para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados: «A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro».[19] A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo. Com efeito, é importante reconhecer, entre as causas da crise ecológica actual, a responsabilidade histórica dos países industrializados. Contudo os países menos desenvolvidos e, de modo particular, os países emergentes não estão exonerados da sua própria responsabilidade para com a criação, porque o dever de adoptar gradualmente medidas e políticas ambientais eficazes pertence a todos. Isto poder-se-ia realizar mais facilmente se houvesse cálculos menos interesseiros na assistência, na transferência dos conhecimentos e tecnologias menos poluidoras.

9. Um dos nós principais a enfrentar pela comunidade internacional é, sem dúvida, o dos recursos energéticos, delineando estratégias compartilhadas e sustentáveis para satisfazer as necessidades de energia da geração actual e das gerações futuras. Para isso, é preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização. Ao mesmo tempo é preciso promover a pesquisa e a aplicação de energias de menor impacto ambiental e a «redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos».[20] Deste modo, a crise ecológica oferece uma oportunidade histórica para elaborar uma resposta colectiva tendente a converter o modelo de desenvolvimento global segundo uma direcção mais respeitadora da criação e de um desenvolvimento humano integral, inspirado nos valores próprios da caridade na verdade. Faço votos, portanto, de que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã.[21]

10. A fim de guiar a humanidade para uma gestão globalmente sustentável do ambiente e dos recursos da terra, o homem é chamado a concentrar a sua inteligência no campo da pesquisa científica e tecnológica e na aplicação das descobertas que daí derivam. A «nova solidariedade», que João Paulo II propôs na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990,[22] e a «solidariedade global», a que eu mesmo fiz apelo na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009,[23] apresentam-se como atitudes essenciais para orientar o compromisso de tutela da criação através de um sistema de gestão dos recursos da terra melhor coordenado a nível internacional, sobretudo no momento em que se vê aparecer, de forma cada vez mais evidente, a forte relação que existe entre a luta contra a degradação ambiental e a promoção do desenvolvimento humano integral. Trata-se de uma dinâmica imprescindível, já que «o desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade».[24] Muitas são hoje as oportunidades científicas e os potenciais percursos inovadores, mediante os quais é possível fornecer soluções satisfatórias e respeitadoras da relação entre o homem e o ambiente. Por exemplo, é preciso encorajar as pesquisas que visam identificar as modalidades mais eficazes para explorar a grande potencialidade da energia solar. A mesma atenção se deve prestar à questão, hoje mundial, da água e ao sistema hidrogeológico global, cujo ciclo se reveste de primária importância para a vida na terra, mas está fortemente ameaçado na sua estabilidade pelas alterações climáticas. De igual modo deve-se procurar apropriadas estratégias de desenvolvimento rural centradas nos pequenos cultivadores e nas suas famílias, sendo necessário também elaborar políticas idóneas para a gestão das florestas, o tratamento do lixo, a valorização das sinergias existentes no contraste às alterações climáticas e na luta contra a pobreza. São precisas políticas nacionais ambiciosas, completadas pelo necessário empenho internacional que há-de trazer importantes benefícios sobretudo a médio e a longo prazo. Enfim, é necessário sair da lógica de mero consumo para promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos. A questão ecológica não deve ser enfrentada apenas por causa das pavorosas perspectivas que a degradação ambiental esboça no horizonte; o motivo principal há-de ser a busca duma autêntica solidariedade de dimensão mundial, inspirada pelos valores da caridade, da justiça e do bem comum. Por outro lado, como já tive ocasião de recordar, a técnica «nunca é simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações ao desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais. Assim, a técnica insere-se no mandato de “cultivar e guardar a terra” (cf. Gn 2, 15) que Deus confiou ao homem, e há-de ser orientada para reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus».[25]

11. É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até económico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adoptarem novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento».[26] Deve-se educar cada vez mais para se construir a paz a partir de opções clarividentes a nível pessoal, familiar, comunitário e político. Todos somos responsáveis pela protecção e cuidado da criação. Tal responsabilidade não conhece fronteiras. Segundo o princípio de subsidiariedade, é importante que cada um, no nível que lhe corresponde, se comprometa a trabalhar para que deixem de prevalecer os interesses particulares. Um papel de sensibilização e formação compete de modo particular aos vários sujeitos da sociedade civil e às organizações não-governamentais, empenhados com determinação e generosidade na difusão de uma responsabilidade ecológica, que deveria aparecer cada vez mais ancorada ao respeito pela «ecologia humana». Além disso, é preciso lembrar a responsabilidade dos meios de comunicação social neste âmbito, propondo modelos positivos que sirvam de inspiração. É que ocu-par-se do ambiente requer uma visão larga e global do mundo; um esforço comum e responsável a fim de passar de uma lógica centrada sobre o interesse egoísta da nação para uma visão que sempre abrace as necessidades de todos os povos. Não podemos permanecer indiferentes àquilo que sucede ao nosso redor, porque a deterioração de uma parte qualquer do mundo recairia sobre todos. As relações entre pessoas, grupos sociais e Estados, bem como as relações entre homem e ambiente são chamadas a assumir o estilo do respeito e da «caridade na verdade». Neste contexto alargado, é altamente desejável que encontrem eficaz correspondência os esforços da comunidade internacional que visam obter um progressivo desarmamento e um mundo sem armas nucleares, cuja mera presença ameaça a vida da terra e o processo de desenvolvimento integral da humanidade actual e futura.

12. A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Com efeito, a degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que, «quando a “ecologia humana”é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental».[27] Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social.[28] Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que, como indiquei na encíclica Caritas in veritate, salvaguarde uma autêntica «ecologia humana» e consequentemente afirme, com renovada convicção, a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insubstituível da família, onde se educa para o amor ao próximo e o respeito da natureza.[29] É preciso preservar o património humano da sociedade. Este património de valores tem a sua origem e está inscrito na lei moral natural, que é fundamento do respeito da pessoa humana e da criação.

13. Por fim não se deve esquecer o facto, altamente significativo, de que muitos encontram tranquilidade e paz, sentem-se renovados e revigorados quando entram em contacto directo com a beleza e a harmonia da natureza. Existe aqui uma espécie de reciprocidade: quando cuidamos da criação, constatamos que Deus, através da criação, cuida de nós. Por outro lado, uma visão correcta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa. Se o magistério da Igreja exprime perplexidades acerca de uma concepção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, fá-lo porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos. Deste modo, chega-se realmente a eliminar a identidade e a função superior do homem, favorecendo uma visão igualitarista da «dignidade» de todos os seres vivos. Assim se dá entrada a um novo panteísmo com acentos neopagãos que fazem derivar apenas da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, a salvação para o homem. Ao contrário, a Igreja convida a colocar a questão de modo equilibrado, no respeito da «gramática» que o Criador inscreveu na sua obra, confiando ao homem o papel de guardião e administrador responsável da criação, papel de que certamente não deve abusar mas também não pode abdicar. Com efeito, a posição contrária, que considera a técnica e o poder humano como absolutos, acaba por ser um grave atentado não só à natureza, mas também à própria dignidade humana.[30]

14. Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl 1, 20). Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados «novos céus e uma nova terra» (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre. Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há-de enfrentar com renovado e concorde empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos. Disto mesmo estejam cientes os responsáveis das nações e quantos, nos diversos níveis, têm a peito a sorte da humanidade: a salvaguarda da criação e a realização da paz são realidades intimamente ligadas entre si. Por isso, convido todos os crentes a elevarem a Deus, Criador omnipotente e Pai misericordioso, a sua oração fervorosa, para que no coração de cada homem e de cada mulher ressoe, seja acolhido e vivido o premente apelo: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2009.

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Segunda meditação de Advento- Frei Raniero Cantalamessa

dezembro 12, 2009 Deixe um comentário

Ministros da nova aliança do Espírito

1. A serviço do Espírito

Na pregação passada, havíamos comentado a definição que Paulo dá dos sacerdotes como “servos de Cristo”. Na Segunda Carta aos Coríntios, encontra-se uma afirmação aparentemente diferente. Ele escreve: “que nos tornou capazes de exercer o ministério da aliança nova, não da letra, mas do Espírito. A letra mata, o Espírito é que dá a vida. Se o ministério da morte, gravado em pedras com letras, foi cercado de tanta glória que os israelitas não podiam fitar o rosto de Moisés, por causa do seu fulgor, ainda que passageiro, quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito?” (2 Cor 3, 6-8).

Paulo define a si mesmo e seus colaboradores como “ministros do Espírito” e o ministério apostólico como um “serviço do Espírito”. A comparação com Moisés e com o culto da Antiga Aliança não deixa nenhuma dúvida de que nessa passagem, como em muitas outras dessa mesma carta, ele fala do papel dos guias da comunidade cristã, ou seja, dos apóstolos e seus colaboradores.

Quem conhece a relação que existe para Paulo entre Cristo e o Espírito sabe que não há contradição entre ser servos de Cristo e ministros do Espírito, mas uma perfeita continuidade. O Espírito de que se fala aqui é de fato o Espírito de Cristo. O próprio Jesus explica o papel do Paráclito a respeito dele mesmo, quando diz aos apóstolos: ele tomará do meu e vos anunciará, ele vos fará recordar aquilo que eu disse, ele dará testemunho de mim…

A definição completa do ministério apostólico e sacerdotal é: servos de Cristo no Espírito Santo. O Espírito indica a qualidade ou a natureza de nosso serviço, que é um serviço “espiritual” no sentido forte do termo; não só no sentido de que se relaciona com o espírito do homem, sua alma, mas no sentido de que tem por sujeito, ou “agente principal”, como dizia Paulo VI, o Espírito Santo. Santo Irineu diz que o Espírito Santo é “a nossa própria comunhão com Cristo” [1].

Logo acima, na mesma Segunda Carta aos Coríntios, o apóstolo havia ilustrado a ação do Espírito Santo nos ministros da nova aliança com o símbolo da unção: “É Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. Foi ele que imprimiu em nós a sua marca e nos deu como garantia o Espírito derramado em nossos corações” (2 Cor 1, 21 s.).

Santo Atanásio comenta sobre este texto: “o Espírito é chamado para ungir e selar… A unção é o sopro do Filho para que todo aquele que possui o Espírito possa dizer: ‘nós somos o perfume de Cristo’. O selo é o Cristo, de modo que aquele que é marcado pelo selo possa assumir a forma de Cristo” [2]. Quanto à unção, o Espírito Santo nos transmite o perfume de Cristo; quanto ao selo, a sua forma ou imagem. Portanto, não há dicotomia entre o serviço de Cristo e o serviço do Espírito, mas unidade profunda.

Todos os cristãos são “ungido”; o próprio nome não significa outra coisa que isso: “ungido”, à semelhança de Cristo, que é o Ungido por excelência (cf. 1 Jo 2, 20. 27). Mas Paulo está falando aqui de sua obra e de Timóteo (“nós”) na comunidade (“vós”); é evidente que se refere especificamente à unção e ao selo do Espírito recebidos no momento de ser consagrados ao ministério apostólico, para Timóteo mediante a imposição das mãos do Apóstolo (cf. 2 Tim 1, 6).

Temos de redescobrir a importância da unção do Espírito, porque nela, creio, está contido o segredo da eficácia do ministério episcopal e presbiteral. Os sacerdotes são essencialmente consagrados, isto é, ungidos. “Nosso Senhor Jesus – lê-se na Presbyterorum ordinis – que o Pai santificou e enviou ao mundo (Jo 10, 36), tornou participante todo o seu Corpo místico da unção do Espírito com que Ele mesmo tinha sido ungido”. O mesmo decreto conciliar lança luz sobre a especificidade da unção conferida pelo sacramento da Ordem. Por isso, diz, “os presbíteros ficam assinalados com um caráter particular e, dessa maneira, configurados a Cristo sacerdote, de tal modo que possam agir em nome de Cristo cabeça” [3].

2. A Unção: figura, acontecimento e sacramento

A unção, como a Eucaristia e a Páscoa, é uma daquelas realidades que se fazem presentes em todas as fases da história da salvação. De fato, está presente no Antigo Testamento como figura, no Novo Testamento como acontecimento e no tempo da Igreja como sacramento. No nosso caso, a figura advém das várias unções praticadas no Antigo Testamento; o acontecimento é constituído pela unção de Cristo, o Messias, o Ungido, a quem todas as figuras tendiam como que ao seu cumprimento; o sacramento é representado por aquele conjunto de sinais sacramentais que provêm da unção como rito principal ou complementar.

No Antigo Testamento se fala em três tipos de unção: a unção real, a sacerdotal e a profética, isto é, a unção dos reis, dos sacerdotes e dos profetas, ainda que no caso dos profetas se trate de uma unção espiritual ou metafórica, sem a presença de um óleo material. Em cada uma destas três unções, é delineado um horizonte messiânico, ou seja, a expectativa de um rei, um sacerdote ou um profeta, que será o Ungido por antonomásia, o Messias

Junto com a investidura oficial e jurídica, pela qual o rei converte-se no Ungido do Senhor, a unção confere também, segundo a Bíblia, um poder interior, comporta uma transformação que vem de Deus e este poder, esta realidade vem cada vez mais identificados com o Espírito Santo. Ao ungir a Saul como rei, Samuel disse: “Não é o Senhor quem te ungiu como chefe de seu povo Israel? Tu governarás o povo do Senhor… Te invadirá então o Espírito do Senhor, entrarás em transe com eles e ficarás mudado em outro homem” (1 Samuel 10, 1-6).

O Novo Testamento não hesita em apresentar Jesus como o Ungido de Deus, no qual todas as unções do passado encontraram seu cumprimento. O título de Messias, Cristo, que significa justamente Ungido, é a prova mais clara disso.

O momento ou evento histórico que remete a essa conclusão é o batismo de Jesus no Jordão. O efeito desta unção é o Espírito Santo: “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder” (At 10, 38); o próprio Jesus, após seu batismo, declarará na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois me ungiu (Lc 4, 18).

Jesus era certamente pleno do Espírito Santo desde o momento da Encarnação, mas tratava-se de uma graça pessoal, ligada à união hipostática, e portanto incomunicável. Ora, na unção, recebe aquela plenitude do Espírito Santo que, como cabeça, poderá transmitir para o corpo. A Igreja vive desta graça capital (gratia capitis).

Os efeitos da tríplice unção – real, profética e sacerdotal – são grandiosos e imediatos no ministério de Jesus. Pela força da unção real, Ele abate o reino de Satanás e instaura o Reino de Deus: “se expulso, no entanto, pelo Espírito de Deus, é porque já chegou até vós o Reino de Deus” (Mt 12, 28); pela força da unção profética, “anuncia a boa nova aos pobres”; e pela força da unção sacerdotal, oferece orações e lágrimas durante sua vida terrena e, ao fim, oferece a si mesmo na cruz.

Após ter estado presente no Antigo Testamento como figura e no Noto Testamento como acontecimento, a unção está presente agora na Igreja como sacramento. O sacramento toma da figura o sinal e do acontecimento o significado; toma das unções do Antigo Testamento o elemento – o óleo, o crisma ou unguento perfumado – e de Cristo a eficácia salvífica. Cristo nunca foi ungido com óleo físico (à parte da unção de Betânia), nem nunca ungiu a ninguém com óleo físico. Nele o símbolo foi substituído pela realidade, pelo “óleo da alegria” que é o Espírito Santo.

Mais que um sacramento isolado, a unção está presente na Igreja como um conjunto de ritos sacramentais. Como sacramentos em si mesmos, temos a confirmação (que através de todas as transformações sofridas remete, como testemunha seu nome, ao rito antigo da unção com o crisma) e a unção dos enfermos; como parte de outros sacramentos, temos a unção batismal e a unção nos sacramento da Ordem. Na unção crismal que se segue ao batismo, faz-se menção explícita à tríplice unção de Cristo: “Ele próprio vos consagra com o crisma da salvação; inseridos em Cristo sacerdote, rei e profeta, sejais sempre membro de Seu corpo para a vida eterna”.

De todas estas unções, interessa-nos neste momento a que acompanha ao momento em que se confere a Ordem sagrada. No momento em que unge com o sagrado crisma as palmas de cada ordenando ajoelhado ante ele, o bispo pronuncia estas palavras: “O Senhor Jesus Cristo, que o Pai consagrou no Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação de seu povo e para oferecer o sacrifício”.

3. A unção espiritual

Existe um risco comum a todos os sacramentos: o de ficar no aspecto ritualístico e canônico da ordenação, em sua validade e legitimidade, sem dar a devida importância ao res sacramenti, ao efeito espiritual, à graça própria do sacramento, no caso o fruto da unção na vida do sacerdote. A unção sacramental nos habilita a cumprir certas tarefas sacras, como orientar, pregar, instruir; nos dá, por assim dizer, a autorização para fazer certas coisas, não necessariamente a autoridade para fazê-las; assegura a sucessão apostólica, mas não necessariamente o sucesso apostólico!

A unção sacramental, com o caráter indelével (o “selo”) que imprime no sacerdote, é um recurso ao qual podemos recorrer a qualquer momento, sempre que sentirmos necessidade, que podemos, por assim dizer, ativar a qualquer momento de nosso ministério. Também aqui atua aquilo que a teologia chama de “revivescência” do sacramento. O sacramento, uma vez recebido no passado, reviviscit, volta a reviver e a conferir sua graça: em casos extremos, porque remove o obstáculo do pecado (o obex), em outros casos porque remove o verniz do costume, intensificando a fé no sacramento. É como se fosse um frasco de perfume; pode-se mantê-lo no bolso ou nas mãos indefinidamente, mas enquanto não o abrirmos, o perfume não se manifesta, é como se não estivesse lá.

Como nasceu essa ideia de uma unção atual? Um passo importante foi dado, mais uma vez, por Agostinho. Ele interpreta o texto da primeira Carta de João: “Quanto a vós, a unção que recebestes de Jesus permanece convosco…” (1 Jo 2, 27), no sentido de uma unção perene, por meio da qual o Espírito Santo, professor interior, permite-nos compreender interiormente aquilo que ouvimos de fora. É atribuída a ele a expressão “unção espiritual”, spiritalis unctio, que consta no hino Veni Creator [4]. São Gregório Magno ajudou, entre muitas outras coisas, a popularizar, ao longo da Idade Média, esse ponto de vista agostiniano [5].

Uma nova fase no desenvolvimento do tema da unção se inicia com São Bernardo e São Boaventura. Com eles, se define o novo sentido, de caráter espiritual, da unção, já não tanto relacionado ao tema do conhecimento da verdade, mas sobre a experiência da realidade divina. Comentando o Cântico dos Cânticos, São Bernardo diz: “um tal cântico, só a unção ensina, só a experiência nos faz compreender” [6]. São Boaventura identifica a unção com a devoção, concebida por ele como “um suave sentimento de amor a Deus despertado pela lembrança das bênçãos de Cristo” [7]. Esta não depende da natureza ou do conhecimento, nem das palavras ou dos livros, mas “do dom de Deus que é o Espírito Santo” [8].

Nos dias de hoje, são cada vez mais comuns as expressões ungido e unção (anointed, anointing) para referir-se à ação de uma pessoa, à qualidade de um discurso ou pregação, mas com um sentido diferente. Na linguagem tradicional, a palavra unção sugere, como vimos, uma ideia de suavidade e doçura, a ponto de dar lugar, em seu uso profano, a acepções pejorativas, “untuoso” como “bajulador”, referindo-se a uma pessoa “desagradavelmente cerimoniosa e servil”.

Em seu uso moderno, mais próximo do bíblico, a palavra sugere muito mais uma ideia de poder e de força de persuasão. Um sermão carregado de unção é um sermão em que percebemos, por assim dizer, o entusiasmo provindo do Espírito; um discurso que abala, que fala ao coração das pessoas. Trata-se de um componente genuinamente bíblico do termo, presente por exemplo no texto dos Atos, onde se diz que Jesus “foi ungido com o Espírito Santo e com poder” (At 10, 38).

A unção, nesse sentido, parece mais um ato do que estado. É algo que a pessoa não possui de maneira constante, mas que se “investe” sobre ela no momento do exercício do ministério ou da oração.

Se a unção se dá pela presença do Espírito, sendo um dom dele proveniente, o que podemos fazer para obtê-la? Antes de mais nada, orar. Há uma promessa explícita de Jesus: “Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!” (Lucas 11:13). Cumpre pois, também a nós, quebrar o vaso de alabastro, como a pecadora na casa de Simão. O vaso é o nosso eu, e talvez nosso intelectualismo árido. Quebrá-lo significa renunciar a nós mesmos, ceder a Deus, com um ato explícito, as rédeas de nossa vida. Deus não pode doar Seu Espírito a quem não se doa inteiramente a Ele.

4. Como obter a unção do Espírito

Apliquemos à vida do sacerdote este rico conteúdo bíblico e teológico relacionado ao tema da unção. São Basílio diz que o Espírito Santo “estava sempre presente na vida do Senhor, tornando-se a unção e o companheiro inseparável”, de modo que “toda atividade de Cristo envolve-se no Espírito” [9]. Receber a unção significa, portanto, receber o Espírito Santo como “companheiro inseparável” na vida, fazer tudo “no Espírito”, à sua presença, com sua guia. Isso implica uma certa passividade, docilidade, ou como diz Paulo, um “deixar-se guiar pelo Espírito” (Gl 5, 18).

Tudo isso se traduz, externamente, ora em suavidade, calma, paz, doçura, devoção, comoção, ora em autoridade, força, poder, credibilidade, dependendo das circunstâncias, do caráter de cada um e também da atividade que exerce. O exemplo de vida é Jesus, que, movido pelo Espírito, manifesta-se como manso e humilde de coração, mas também, quando necessário, pleno de autoridade sobrenatural. É uma condição caracterizada por um certo brilho interior, que torna fácil e credível no fazer as coisas. Um pouco de como é a “forma” para o atleta e a inspiração para o poeta: um estado em que se pode dar o melhor de si.

Nós, sacerdotes, precisamos nos acostumar a buscar a unção do Espírito antes de desempenhar uma ação importante no serviço do Reino: uma decisão a tomar, uma nomeação a fazer, um documento a escrever, uma comissão a presidir, uma pregação a preparar. Eu aprendi de maneira dura. Encontrei-me, por vezes, ter de falar a um público amplo, em uma língua estrangeira, muitas vezes tendo acabado de chegar de uma longa viagem. Escuridão total. A língua em que deveria falar parecia-me escapar, a incapacidade de me concentrar sobre um esquema, um tema. E a música de abertura estava prestes a terminar… Então me lembrei da unção e logo fiz uma breve oração: “Pai, em nome de Cristo, peço a unção do Espírito!”

Às vezes, o efeito é imediato. Experimenta-se quase fisicamente a unção vindo sobre si. Uma certa comoção atravessa o corpo, ilumina a mente, serenidade na alma; desaparece a fadiga, o nervosismo, cada medo e cada timidez; experimenta-se algo da própria calma e autoridade de Deus.

Muitas das minhas orações, como imagino com todo cristão, não foram escutadas, no entanto, quase nunca fica sem ser escutada esta oração pela unção. Parece que diante de Deus, temos uma espécie de direito de reclamá-la. Mais tarde, especulei um pouco sobre essa possibilidade. Por exemplo, se devo falar de Jesus Cristo, faço uma aliança secreta com Deus Pai, sem fazer Jesus saber, e digo: “Pai, devo falar de teu Filho Jesus, que tanto amas: dê-me a unção de Seu Espírito para alcançar o coração das pessoas. Se eu tiver que falar de Deus, o Pai, o oposto: faço um acordo secreto com Jesus… A doutrina da Trindade é maravilhoso também para isso.

5. Ungido para espalhar no mundo o bom odor de Cristo

No mesmo contexto de 2 Coríntios, o apóstolo, sempre referindo-se ao ministério apostólico, desenvolve a metáfora da unção com o perfume, escreve: “Graças sejam dadas a Deus que nos faz sempre triunfar em Cristo e que, por meio de nós, vai espalhando por toda a parte o perfume do seu conhecimento. De fato, nós somos o bom odor de Cristo para Deus” (2 Cor 2, 14-15).

Este deve ser o sacerdote: o perfume de Cristo no mundo! Mas o apóstolo nos adverte, acrescentando de imediato: “trazemos esse tesouro em vasos de barro” (2 Cor 4, 7). Sabemos muito bem, pela experiência dolorosa e humilhante recente, o que tudo isso significa. Jesus disse aos apóstolos: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perde seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas.” (Mt 5, 13). A verdade desta palavra de Cristo é dolorosa aos nossos olhos. Se o unguento perde o odor e se gasta, transforma-se no seu contrário, em mau cheiro e, em vez aproximar de Cristo, afasta dele. Em parte para responder a esta situação, o Santo Padre convocou este Ano Sacerdotal. O disse abertamente na carta de convocação: “há situações, nunca bastante deploradas, em que a Igreja sofre pela infidelidade de alguns de seus ministros. Nestes casos, é o mundo que sofre o escândalo e o abandono”.

A carta do Papa não se limita a esta constatação; de fato, acrescenta: “O máximo que a Igreja pode recavar de tais casos não é tanto a acintosa revelação das fraquezas dos seus ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e pelas almas”.

A revelação das fraquezas também deve ser feita para fazer justiça às vítimas e a Igreja agora o reconhece e a aplica da melhor forma que pode, mas deve fazer-se em outra sede e, em todo caso, não virá de lá o estímulo para uma renovação do ministério sacerdotal. Eu pensei neste ciclo de meditações sobre o sacerdócio precisamente como uma pequena contribuição na direção desejada pelo Santo Padre. Eu gostaria de deixar que o seráfico padre, São Francisco, falasse no meu lugar. Em um momento em que a situação moral do clero era sem comparação mais triste que a de hoje, em seu testamento, ele escreve: “O Senhor me deu e ainda me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa de suas ordens, que, mesmo que me perseguissem, quero recorrer a eles. E se tivesse tanta sabedoria quanto teve Salomão e encontrasse míseros sacerdotes deste mundo, nas paróquias em que eles moram não quero pregar contra a vontade deles. E hei de respeitar, amar e honrar a eles e a todos os outros como a meus senhores. Nem quero olhar para o pecado deles porque neles reconheço o Filho de Deus e eles são os meus senhores. E procedo assim porque do mesmo altíssimo Filho de Deus nada enxergo corporalmente neste mundo senão o seu santíssimo corpo e sangue, que eles consagram e somente eles administram aos outros”.

No texto citado no começo, Paulo fala da “glória” dos ministros da Nova Aliança no Espírito, imensamente mais elevada que a antiga. Esta glória não procede dos homens e não pode ser destruída pelos homens. O santo Cura de Ars difundia certamente ao seu redor o bom odor de Cristo e, por este motivo, as multidões iam a Ars; mais perto de nós, o Padre Pio de Pietrelcina difundia o odor de Cristo, às vezes inclusive com um perfume físico, como testemunham inúmeras pessoas dignas de fé. Muitos sacerdotes, ignorados pelo mundo, são em seu ambiente o bom odor de Cristo e do Evangelho. O “padre rural” de Bernanos tem muitos companheiros espalhados pelo mundo, na cidade e no campo.

O Pe. Lacordaire traçou um perfil do sacerdote católico, que hoje em dia pode parecer muito otimista e idealizado, mas voltar a encontrar o ideal e o entusiasmo pelo ministério sacerdotal é precisamente o que está faltando neste momento e, por esta razão, voltamos a escutar, ao concluir esta meditação: “Viver no meio do mundo sem nenhum desejo pelos próprios prazeres; ser membro de toda família, sem pertencer a nenhuma delas; compartilhar todo sofrimento; ficar à margem de todo segredo; curar toda ferida; ir todos os dias dos homens a Deus para oferecer-lhe sua devoção e sua oração, e voltar de Deus aos homens para levar-lhes seu perdão e sua esperança; ter um coração de ferro pela castidade e um coração de carne para a caridade; ensinar e perdoar, consolar e abençoar e ser abençoado para sempre. Ó Deus, que tipo de vida é esta? É a tua vida, sacerdote de Jesus Cristo! [10]

* * *

[Notas originais em italiano]

1) S. Ireneo, Adv. Haer. III, 24, 1.

2) S. Atanasio, Lettere a Serapione, III, 3 (PG 26, 628 s.).

3) PO, 1,2.

4) S. Agostino, Sulla prima lettera di Giovanni, 3,5 (PL 35, 2000); cf. 3, 12 (PL 35, 2004).

5) Cf. S. Agostino, Sulla prima lettera di Giovanni, 3,13 (PL 35, 2004 s.); cf. S. Gregorio Magno, Omelie sui Vangeli 30, 3 (PL 76, 1222).

6) S. Bernardo, Sul Cantico, I, 6, 11 (ed. Cistercense, I, Roma 1957, p.7).

7) S. Bonaventura, IV, d.23,a.1,q.1 (ed. Quaracchi, IV, p.589); Sermone III su S. Maria Maddalena (ed. Quaracchi, IX, p. 561).

8) Ibidem, VII, 5.

9) S. Basilio, Sullo Spirito Santo, XVI, 39 (PG 32, 140C).

10) H. Lacordaire, cit. da D.Rice, Shattered Vows, The Blackstaff Press, Belfast 1990, p.137.

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O que é a teologia da libertação?

dezembro 11, 2009 Deixe um comentário

Em face da condenação de um livro de Jon Sobrinho, um dos teólogos líderes da teologia da libertação, pela Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, do Vaticano, a discussão sobre esta teologia voltou a campo.

Um grupo de teólogos desta linha acaba de publicar um livro contestando a ação do Vaticano e do Papa. São eles: Marcelo Barros, Leonardo Boff, Teófilo Cabestrero, Oscar Campana, Víctor Codina, José Comblin , Confer de Nicaragua, Lee Cormie, Eduardo de la Serna, José Estermann, Benedito Ferraro, Eduardo Frades, Luis Arturo Garcia Dávalos, Ivone Gebara, Eduardo Hoornaert, Diego IrarrázavaI, Jung Mo Sung, Paul Kmitter, João Batista Libânio, María y José Ignacio López Vigil, Carlos Mesters, Ricardo Renshaw, Jean Richard, Pablo Richard, Luis Rivera Págan, José Sánchez, Stefan Silber, Ezequiel Silva, Afonso Mª Ligório Soares, José Sols, Paulo Suess, Luiz Carlos Susin, Faustino Teixeira, Tissa Balasuriya, e José María Vigil. A Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo Mundo publicou o livro “Bajar de la cruz a los pobres: cristología de la liberación”.

Muitos perguntam, o que é afinal, esta teologia da libertação? Vou responder esta pergunta com a resposta que deu a ela a autoridade da Igreja Católica; o Cardeal Joseph Ratzinguer, escolhido pelo Papa João Paulo II, em 1981, para ser o Prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé; aquela que está encarregada de cuidar da “sã doutrina” (1Tm1,10; 4,6; Tt1,9; 2,1;2,7; 2Tm4,3), que com tanta ênfase São Paulo recomendava a Timóteo e a Tito. Hoje o então Cardeal Ratzinger é o Papa Bento XVI.

A teologia da libertação surgiu, mais especificamente, na América Latina, na década de 60, e ganhou adeptos principalmente nas Comunidades Eclesiais de Base. A partir dos anos 80 pudemos sentir mais de perto a sua ação. Foi então que o Cardeal Ratzinguer, escreveu um importante artigo intitulado “Eu vos explico a teologia da libertação” (Revista PR,n. 276, set-out, 1984, pp354-365), onde deixou claro todo o seu perigo. Analisando este artigo, D.Estevão Bettencourt, afirma: “O autor mostra que a teologia da libertação não trata apenas de desenvolver a ética social cristã em vista da situação socioeconômica da América Latina, mas revolve todas as concepções do Cristianismo: doutrina da fé, constituição da Igreja, Liturgiacatequese, opções morais, etc.

Entre as afirmações, o então Cardeal Prefeito diz:

“A gravidade da teologia da libertação não é avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente; é a subversão radical do Cristianismo, que torna urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela”. (os grifos são meus)

“A teologia da libertação é uma nova versão do Cristianismo, segundo o racionalismo do teólogo protestante Rudolf Bultmann, e do marxismo, usando “a seu modo”, uma linguagem teológica e até dogmática, pertencente ao patrimônio da igreja, revestindo-se até de uma certa mística, para disfarçar os seus erros”.

O então Cardeal foi muito claro ao afirmar o perigo:

“Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida”.

E o Cardeal vai explicando esta teologia “nova”:

“Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão do Cristianismo na sua totalidade. Por isso mesmo muda todas as formas da vida eclesial; a constituição eclesiástica, a Liturgia, a catequese, as opções morais…”

“A teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas, assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política”.

A libertação, para a teologia da libertação, é conquistada pela via política, e não pela Redenção de Jesus, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo1,29). Jesus veio para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21), e disse a Pilatos que “o seu Reino não é deste mundo”. O pecado, para a teologia da libertação, se resume quase que só no “pecado social”, mas este, não será “arrancado” com a conversão e com os Sacramentos da Igreja, mas com a “libertação” do povo, pela luta política. Daí o fato de haver um laxismo moral e espiritual em muitos adeptos dessa teologia. Muitos não valorizam a celebração da Missa, a não ser como uma “celebração de mobilização política” do povo oprimido. Não se valoriza suficientemente a oração, a Confissão, a Eucaristia, o santo Rosário, a adoração ao Santíssimo Sacramento, e a todas as práticas de espiritualidade tradicionais, que são, então, consideradas superadas e até alienantes.

Conheço várias jovens sacerdotes que se formaram em seminários fortemente influenciados pela teologia da libertação, e que hoje deixaram o sacerdócio, ficaram esvaziados espiritualmente… Noto que nem se realizaram no campo social e nem no campo religioso.

  • O então Cardeal Ratzinguer mostrou que é difícil enfrentar esse perigo, pois, como afirma:

“Os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em chave nova, de tal modo que aqueles que lêem e escutam, partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas…”

  • O então Cardeal mostrou a inversão que se faz no papel da comunidade, povo e história, para a vida da Igreja:

“A comunidade ‘interpreta’, com a sua ‘experiência’ os acontecimentos e encontra assim a sua práxis”.

” ‘Povo’ torna-se assim um conceito oposto ao de ‘hierarquia’ e antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão. Afinal, é ‘povo’, quem participa da ‘luta de classes’; a ‘ igreja popular’, acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de ‘história’, torna-se instância hermenêutica decisiva,…a história é a autêntica revelação e, portanto, a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica…Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação”.

Em seguida, o então Cardeal mostra a deturpação também naquilo que é essencial: o Reino de Deus.

“Esse conceito encontra-se também no centro das teologias da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo Jon Sobrino, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatologicamente abstrata. Deve ser compreendido de forma partidária e voltado para a práxis”.

Aqui se entende porque os adeptos da TL militam nos partidos políticos que visam a “libertação do povo”.

  • O Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, explicou o que é a verdadeira libertação:

“Acerca da libertação que a evangelização anuncia e se esforça por atuar, é necessário dizer antes o seguinte: ela não pode ser limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus… Mais ainda: a Igreja tem a firme convicção de que toda a libertação temporal, toda a libertação política, mesmo que ela porventura se esforçasse por encontrar numa ou noutra página do Antigo ou do Novo Testamento a própria justificação, … encerra em si mesma o gérmen da sua própria negação e desvia-se do ideal que se propõe, por isso mesmo que as suas motivações profundas não são as da justiça na caridade, e porque o impulso que a arrasta não tem dimensão verdadeiramente espiritual e a sua última finalidade não é a salvação e a beatitude em Deus.”

“A libertação que a evangelização proclama e prepara é aquela mesma que o próprio Jesus Cristo anunciou e proporcionou aos homens pelo seu sacrifício.” (n.33)

Os adeptos da teologia da libertação têm a enganosa mania de pensar que quem não aceita esta teologia não trabalha pelos pobres e oprimidos e não se preocupa com eles; se acham os únicos defensores dos excluídos; é um grande erro. A Igreja em seus 2000 anos de vida sempre socorreu os desvalidos e ainda o faz, mas nunca precisou lançar mão de ideologias estranhas para isso; sempre agiu pelo puro amor a Jesus Cristo que sofre no doente, no preso, no faminto, etc. A Igreja não precisa que novos teólogos a ensinem a fazer caridade; ela a faz desde os Apóstolos, ela é “perita em humanidade”, como disse Paulo VI.

Hoje 25% das instituições que tratam dos aidéticos são da Igreja; em toda a História da Igreja os santos e santas viveram a verdadeira caridade; só para citar alguns: Santa Isabel da Hungria, S. Vicente de Paulo, S. Francisco de Assis, S. Camilo de Lelis, S. João Bosco, Madre Teresa de Calcutá, Ira. Dulce, e milhares de outros que nunca precisaram reinterpretar o Evangelho e politizar a fé com métodos marxistas de luta de classes, invasão de propriedades alheias fora, da lei, etc., para promover os pobres. São os verdadeiros bons samaritanos do Evangelho.

  • O Papa João Paulo II ao menos por duas vezes, falando aos bispos do Brasil, condenou as invasões de terras:

1 – Ao segundo grupo de Bispos do Brasil, do Regional Sul l da CNBB, em visita “ad limina Apostolorum” de 13 a 28 de Março de 1996, o Papa disse:

“… mas recordo, igualmente, as palavras do meu predecessor Leão XIII quando ensina que “nem a justiça, nem o bem comum consentem danificar alguém ou invadir a sua propriedade sob nenhum pretexto” (RN, 55). A Igreja não pode estimular, inspirar ou apoiar as iniciativas ou movimentos de ocupação de terras, quer por invasões pelo uso da força, quer pela penetração sorrateira das propriedades agrícolas.”

2 – Em discurso em 26/nov/2002 aos bispos do Brasil, ele voltou a dizer:

“Para alcançar a justiça social se requer muito mais do que a simples aplicação de esquemas ideológicos originados pela luta de classes como, por exemplo, através da invasão de terras – já reprovada na minha viagem pastoral em 1991 – e de edifícios públicos e privados, ou por não citar outros, a adoção de medidas técnicas extremas, que podem ter conseqüências bem mais graves do que a injustiça do que pretendiam resolver”.

  • Não podemos nos fazer de surdos a essas palavras. Concluo com as sábias palavras de D. Estevão:

“O cristão não pode ser de forma alguma, insensível à miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia para acudir cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes”

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