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BENTO XVI AOS SEMINARISTAS…

outubro 20, 2010 1 comentário

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 18 de outubro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos a Carta que o Papa Bento XVI dirigiu aos seminaristas do mundo com motivo do encerramento do Ano Sacerdotal. O texto foi difundido nesta segunda-feira pela Santa Sé. * * *

Queridos Seminaristas, Em Dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta «nova Alemanha» estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes. Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma «profissão» do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objecções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: «Até os cabelos da vossa cabeça estão contados». Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir. O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote, sozinha. É necessária a «comunidade dos discípulos», o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos. 1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um «homem de Deus», como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do «big-bang». Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar connosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo. O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contacto com Deus. Quando o Senhor fala de «orar sempre», naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contacto interior com Deus. Exercitar-se neste contacto é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo facto de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo. 2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos, dá-Se pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», dizendo que o pão «nosso», que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão «nosso»; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se nos dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino. Para uma recta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando. 3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o facto de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo. 4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande património da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos «Povo de Deus». 5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma «norma da doutrina», à qual fomos entregues no Baptismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: «Sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar “a razão” (logos) da vossa esperança» (1 Ped3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, reflectindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdos da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que vo-lo diga expressamente. Quão importante seja hoje a teologia ecuménica, conhecer as várias comunidade cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canónico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um pólo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior. 6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente «íntegro». Por isso, a tradição cristã sempre associou às «virtudes teologais» as «virtudes cardeais», derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: «Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento» (4, 8). Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura. Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele. 7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade. Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário. Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à protecção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus omnipotente Pai, Filho e Espírito Santo. Vaticano, 18 de Outubro – Festa de São Lucas, Evangelista – do ano 2010. Vosso no Senhor BENEDICTUS PP XVI

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“Manter acesa a Esperança”

outubro 7, 2010 Deixe um comentário

Discurso de Bento XVI no Congresso sobre a Imprensa Católica Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé (tradução de Leonardo Meira – equipe CN Notícias)

Senhores Cardeais, venerados Irmãos, ilustres Senhoras e Senhores! Acolho-vos com alegria ao término dos quatro dias de intenso trabalho promovidos pelo Pontifício Conselho das Comunicações Sociais e dedicados à imprensa católica. Saúdo cordialmente todos vós – provenientes de 85 países –, que operais nos cotidianos, nos semanários ou em outros periódicos e nos sites da internet. Saúdo o Presidente do Dicastério, Arcebispo Claudio Maria Celli, a quem agradeço por ter-se feito intérprete dos sentimentos de todos, bem como os Secretário, Subsecretário, todos os Oficiais e o Pessoal. Estou feliz por poder destinar-vos uma palavra de encorajamento para continuar, com renovadas motivações, no vosso importante e qualificado compromisso. O mundo dos media passou por uma profunda transformação também no seu interior. O desenvolvimento das novas tecnologias e, em particular, a difundida multimidialidade, parece colocar em discussão o papel dos meios mais tradicionais e consolidados. Oportunamente, o vosso Congresso detém-se a considerar o papel peculiar da imprensa católica. Uma atenta reflexão sobre esse campo, de fato, faz emergir dois aspectos particulares: por um lado, a especificidade do meio, a imprensa, em especial a palavra escrita e a sua atualidade e eficácia, em uma sociedade que viu se multiplicarem antenas, parabólicas e satélites, tornados quase os emblemas de um novo modo de comunicar na era da globalização. Por outro lado, a conotação “católica”, com a responsabilidade que disso deriva de serem fiéis de modo explícito e substancial, através do cotidiano compromisso de percorrer a estrada mestra da verdade. A busca da verdade deve ser perseguida pelos jornalistas católicos com mente e coração apaixonados, mas também com o profissionalismo de comunicadores competentes e dotados de meios adequados e eficazes. Isso se torna ainda mais importante no atual momento histórico, que exige da própria figura do jornalista, enquanto mediador dos fluxos de informação, mudanças profundas. Hoje, por exemplo, na comunicação, tem um peso sempre maior o mundo das imagens com o desenvolvimento de sempre novas tecnologias; mas, se, de uma parte, tudo isso comporta inquestionáveis aspectos positivos, de outra a imagem pode também tornar-se independente do real, pode dar vida a um mundo virtual, com várias consequências, a primeira das quais é o risco da indiferença no confronto com o verdadeiro. De fato, as novas tecnologias, juntamente com o progresso que trazem, podem tornar intercambiáveis o verdadeiro e o falso, podem induzir a confundir o real com o virtual. Além disso, a exposição de um evento, alegre ou triste, pode ser consumida como espetáculo e não como ocasião de reflexão. A busca das vias para uma autêntica promoção do homem passa, em seguida, para um segundo plano, porque o evento é apresentado principalmente para suscitar emoções. Esses aspectos soam como campainhas de alarme: convidam a considerar o perigo de que o virtual distancie da realidade e não estimule à busca do verdadeiro, da verdade. Em tal contexto, a imprensa católica é chamada, de modo novo, a expressar plenamente as suas potencialidades e a dar razão dia a dia da sua irrenunciável missão. A Igreja dispõe de um elemento facilitador, considerando que a fé cristã tem em comum com a comunicação uma estrutura fundamental: o fato que o meio e a mensagem coincidem; de fato, o Filho de Deus, o verbo encarnado, é, ao mesmo tempo, mensagem de salvação e meio através do qual a salvação se realiza. E isso não é um simples conceito, mas uma realidade acessível a todos, também a quantos, quando vivendo como protagonistas na complexidade do mundo, são capazes de conservar a honestidade intelectual própria dos “pequenos” do Evangelho. Além disso, a Igreja, Corpo místico de Cristo, presente contemporaneamente em todos os lugares, alimenta a capacidade de relações mais fraternas e mais humanas, colocando-se como lugar de comunhão entre os crentes e também como sinal e instrumento da vocação de todos à comunhão. A sua força é Cristo, e no Seu nome ela “persegue” o homem pelas estradas do mundo para salvá-lo do mysterium iniquitatis, insidiosamente operante nele. A imprensa evoca de maneira mais direta, com relação a todo o outro meio de comunicação, o valor da palavra escrita. A Palavra de Deus veio aos homens e foi transmitida também a nós através de um livro, a Bíblia. A palavra permanece o instrumento fundamental e, de certo modo, constitutivo da comunicação: é utilizada hoje sob várias formas, e também na assim chamada “civilização das imagens” conserva todo o seu pleno valor. A partir dessas breves considerações, torna-se evidente que o desafio comunicativo é, para a Igreja e para quantos partilham de sua missão, muito comprometedor. Os cristãos não podem ignorar a crise de fé que afeta a sociedade, ou simplesmente confiar que o patrimônio de valores transmitidos ao longo dos séculos passados possa continuar a inspirar e plasmar o futuro da família humana. A ideia de viver “como se Deus não existisse” mostrou-se deletéria: o mundo tem necessidade, mais do que tudo, de viver “como se Deus existisse”, ainda que não tenha a força de acreditar, sob a pena de que isso produza somente um “humanismo desumano”. Queridíssimos irmãos e irmãs, que trabalhais nos meios de comunicação, se não desejais serem somente “um bronze que soa ou o címbalo que retine” (I Cor 13, 1) – como diria São Paulo – deveis ter forte em si a opção de fundo que vos habilita a tratar as coisas do mundo colocando sempre Deus no vértice da escala de valores. Os tempos que estamos vivendo, embora tendo uma notável carga de positividade, porque os fios da história estão nas mãos de Deus e o seu eterno projeto revela-se sempre mais, permanecem assinalados também por tantas sombras. A vossa missão, queridos comunicadores da imprensa católica, é a de ajudar o homem contemporâneo a orientar-se para Cristo, único Salvador, e a manter acesa no mundo a chama da esperança, para viver dignamente o hoje e construir adequadamente o futuro. Por isso, exorto-vos a renovar constantemente a vossa escolha pessoal por Cristo, buscando aqueles recursos espirituais que a mentalidade mundana subvaloriza, embora sejam preciosos, na verdade, indispensáveis. Queridos amigos, encorajo-vos a prosseguir no vosso não fácil compromisso e acompanho-vos com a oração, para que o Espírito Santo torne-o sempre profícuo. A minha bênção, plena de afeto e gratidão, que de bom grado vos concedo, deseja abraçar a vós aqui presentes e a quantos trabalham na imprensa católica em todo o mundo.

fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=278252

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Artigo: O remédio para viver um pouco mais…

setembro 23, 2010 Deixe um comentário

Lucas Alves Gramiscelli

São Paulo (Terça-feira, 21-09-2010, Gaudium Press)

Fundamentado em uma pesquisa de uma universidade norte-americana sobre atividades humanas que reduzem ou aumentam a taxa de sobrevivência do ser humano, Lucas Gramiscelli, um de nossos colaboradores, escreve sobre a importância do convívio social para a melhora da qualidade de vida do homem e consequentemente para sua longevidade.
Comidas e bebidas lights, outras diets, ginástica e cooper, remédios e vitaminas, antioxidantes… Diante de todas essas cuidadosas diligências, muitos se perguntam como fazer para achar uma maneira de robustecer a saúde, viver algum tempo a mais, ou pelo menos com maior qualidade de vida. Há até algumas pessoas que, não sem algum mérito, chegam a abandonar vícios que por muito tempo estavam enraizados, ao perceberem que o tempo vitalício que teriam diminuía a cada instante…

Certamente, há problemas, os quais podem de alguma forma encurtar a vida, e em vista disso a ciência vem desenvolvendo inúmeros métodos a fim de que isso não aconteça.

Segundo uma pesquisa da Universidade Brigham Young, em Provo, Utah, publicada na revista científica PLoS Medicine, fraca interação social reduz em 50% a taxa de sobrevivência. Resultado que equivale a fumar 15 cigarros por dia. Viver isolado é ainda duas vezes mais prejudicial que ser obeso, alcoólatra ou não fazer exercício.

Essa notícia nos faz lembrar “como é bom para os irmãos viverem juntos bem unidos” (Sl 133 (132), 1). Pois, assim como o homem tem necessidade de alimentar-se, de cuidar da própria saúde quando se encontra em estado de enfermidade, é necessário que os homens estejam convivendo entre si. O que é viver senão estar juntos, olhar-se, e querer-se bem?

Monsenhor João S. Clá Dias, em uma de suas conferências sobre o instinto de sociabilidade, dizia que Deus fez o homem sem inúmeras qualidades que foram dadas a animais, como por exemplo a força de um leão, a agilidade do tigre, o voo de uma águia. E por que Deus não as deu ao homem? Porque o homem seria autossuficiente e não necessitaria entrar em contato com os outros.

Portanto, agrada a Deus que os homens estejam em convívio, conhecendo-se, necessitando tantas vezes um do outro, e procurando encontrar entre si os demais aspectos do Criador, pois em sua infinita Sabedoria Deus não fez um ser igual ao outro, e por esta razão devemos encontrar, em cada um, o reflexo Dele.

Isto faz do homem um ser alegre, pois ao viver dignamente em sociedade está cumprindo com a vontade de Deus, e é para esta finalidade que foi chamado. Cumprindo com esses desígnios da Providência, o homem vai se preparando para o mais agradável e excelente convívio, que os Bem-Aventurados terão no céu, onde cada um passará a eternidade inteira deliciando-se com as maravilhas da criação e os diversos aspectos que Deus pôs em cada um dos homens.

Aí se encontra a verdadeira doçura de viver, e o lado por onde as pessoas possam gozar dos gáudios do Céu já aqui na terra, pois entram em contato uns com os outros na mesma intenção de conhecer, amar e servir a Deus. Sem este objetivo, a vida não se fundamenta em verdadeira alegria, mas em isolamento e frustração, onde se perde a vontade e a alegria de viver.


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Discurso de Bento XVI aos estudantes em Londre – 17/09/2010

setembro 17, 2010 1 comentário

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Queridos jovens.


Quero manifestar, em primeiro lugar, a minha alegria por estar convosco aqui hoje. Saúdo com carinho a todos vós que tendes vindo à Saint Mary’s University College das diversas escolas e colégios católicos de todo o Reino Unido, e aos que acompanham este encontro através da televisão ou Internet. Agradeço ao Bispo McMahon sua amável boas-vindas. Agradeço também ao coro e à orquestra pela bela música que deu início a essa nossa celebração, e igualmente desejo expressar minha gratidão à senhorita Bellot pelas amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos os jovens aqui presentes. Com vistas aos próximos Jogos Olímpicos em Londres, foi um prazer inaugurar esta fundação desportiva, intitulada em honra ao Papa João Paulo II, e rezo para que todos que venham aqui deem glória a Deus com suas atividades desportivas e encontrem benefícios para si mesmos e os demais.

Não é frequente que um Papa – na verdade, nem mesmo qualquer outra pessoa – tenha a oportunidade de falar ao mesmo tempo com os estudantes de todas as escolas católicas da Inglaterra, Gales e Escócia. E como eu tenho essa oportunidade, há algo que está muito forte em meu coração para dizer-vos. Tenho a esperança que entre vós, que hoje estais aqui para ouvir-me, haja alguns dos futuros santos do século XXI. O que Deus mais quer para cada um de vós é que vos torneis santos. Ele vos ama muito mais que possais imaginar e deseja o melhor para vós. E a melhor coisa de todas para vós é, de longe, o crescer em santidade.

Talvez alguns de vós jamais tivésseis pensado nisso antes de agora. Talvez alguns pensem que ser santo não seja para si. Deixai-me explicar o que quero dizer. Quando se é jovem, pensamos geralmente em pessoas que estimamos e admiramos, pessoas às quais desejamos nos assemelhar. Poderia tratar-se de alguém que encontramos na nossa vida cotidiana e por quem tenhamos grande estima. Ou poderia ser alguém famoso. Vivemos em uma cultura da celebridade, e os jovens, muitas vezes, são incentivados a ter como modelo figuras do mundo do esporte ou do espetáculo. Desejo fazer-vos esta pergunta: Quais são as qualidades que vedes nos outros e que vós mesmos mais desejaríeis possuir? Qual tipo de pessoa desejaríeis ser de verdade?

Quando vos convido a tornar-vos santos, estou pedindo-vos que não vos contenteis com escolhas de segunda mão. Estou pedindo-vos que não persigam um objetivo limitado, ignorando todos os outros. Ter dinheiro torna possível sermos generosos e fazer o bem no mundo, mas, por si só, não é suficiente para fazer-vos felizes. Ser altamente qualificado em alguma atividade ou profissão é uma coisa boa, mas não poderá nunca satisfazê-los a ponto de dispensar a aspiração por algo ainda maior. Poderá tornar-nos famosos, mas não nos fará felizes. A felicidade é algo que todos desejamos, mas uma das grandes tragédias deste mundo é que muitas pessoas nunca conseguem encontrá-la, porque a procuram nos lugares errados. A solução é muito simples: a verdadeira felicidade é encontrada em Deus. Precisamos ter a coragem de colocar as nossas esperanças mais profundas somente em Deus: não no dinheiro, numa carreira, no sucesso mundano, ou nas nossas relações com os outros, mas em Deus. Somente Ele pode satisfazer as necessidades mais profundas do nosso coração.

Deus não somente nos ama com uma profundidade e intensidade que dificilmente podemos imaginar: Ele convida-nos a responder a esse amor. Todos vós sabeis o que acontece quando encontrais alguém interessante e atraente, como desejaríeis serem amigos daquela pessoa. Esperais sempre que aquela pessoa considere-vos interessantes e atraentes e deseje fazer amizade convosco. Deus deseja a vossa amizade. E, uma vez que vós tenhais entrado na amizade com Deus, tudo na vossa vida começa a mudar. À medida que O conhecereis melhor, percebereis o desejo de refletir na vossa própria vida algo de Sua infinita bondade. Sereis atraídos pela prática da virtude. Começareis a ver a ganância e o egoísmo, e todos os outros pecados, como eles realmente são, tendências destrutivas e perigosas que causam profundo sofrimento e grande dano, e desejareis evitar cair naquelas armadilhas. Começareis a sentir compaixão por aqueles que estão em dificuldade e desejareis fazer algo para ajudá-los. Desejareis ajudar os pobres e famintos, confortar o sofredor, serem bons e generosos. Quando essas coisas começarem a estar em vossos corações, estareis já plenamente encaminhados na via da santidade.

Há sempre um horizonte maior, nas vossas escolas católicas, acima e para além dos temas específicos do vosso estudo e das várias capacidades que aprendeis. Todo o trabalho que fazeis está inserido no contexto do crescimento na amizade com Deus, e daquela amizade deve partir todo o trabalho. Desse modo, aprendeis não somente a ser bons estudantes, mas bons cidadãos e boas pessoas. Enquanto prosseguíeis com o percurso escolar, deveis tomar a decisão sobre o que estudar, e começar a especializar-vos frente ao que fareis na vida. Isso é justo e conveniente. Mas lembrai-vos sempre que toda a matéria que estudais se insere em um horizonte mais amplo. Não vos reduzíeis jamais a um horizonte restrito. O mundo precisa de bons cientistas, mas uma perspectiva científica tornada perigosamente estreita ignora a dimensão ética e religiosa da vida, assim como quando a religião torna-se estreita, rejeita-se a legítima contribuição da ciência à nossa compreensão do mundo. Precisamos de bons historiadores, filósofos e economistas, mas se a percepção que oferecem da vida humana no interior do seu campo específico é centrada em uma perspectiva demasiado estreita, podem seriamente levar-nos à perdição.

Uma boa escola oferece uma formação completa para a pessoa inteira. E uma boa escola católica, acima e para além desse aspecto, deveria ajudar os seus estudantes a tornarem-se santos. Sei que há muitos não católicos que estudam em escolas católicas na Grã-Bretanha e desejo dirigir-me a vós com minhas palavras de hoje. Rezo para que também vós sejais encorajados a praticar a virtude e crescer na consciência e amizade com Deus, juntamente com seus companheiros católicos. Vós sois para eles a lembrança de um horizonte mais amplo que existe fora da escola e, sem sombra de dúvidas, o respeito e a amizade entre os membros de diferentes tradições religiosas deve estar entre as virtudes que são aprendidas em uma escola católica. Espero também que desejeis compartilhar com outros os valores e ensinamentos aprendidos através da formação cristã recebida.

Queridos amigos, agradeço-vos pela vossa atenção, prometo que rezarei por vós e peço-vos que rezeis por mim. Espero ver muitos de vós em agosto próximo na Jornada Mundial da Juventude, em Madri. Nesse meio tempo, que Deus abençoe a todos vós!

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Catequese do Papa: Clara de Assis, esposa de Cristo

setembro 16, 2010 Deixe um comentário

Caros irmãos e irmãs,

uma das santas mais amadas é, sem dúvida, Santa Clara de Assis, que viveu no século XIII, contemporânea de São Francisco. Seu testemunho mostra-nos o quanto a Igreja deve a mulheres corajosas e ricas na fé como ela, capazes de dar um impulso decisivo para a renovação da Igreja.

Quem foi então Clara de Assis? Para responder a esta pergunta, temos fontes seguras, não apenas as antigas biografias, como a de Tomás de Celano, mas também os autos do processo de canonização promovido Papa já pouco depois da morte de Clara e que contêm o testemunho dos que viveram ao seu lado por muito tempo.

Nascida em 1193, Clara pertencia a uma família aristocrática e rica. Renunciou à nobreza e à riqueza para viver pobre e humilde, adotando a forma de vida que Francisco de Assis propunha. Apesar de seus pais planejarem um casamento com algum personagem de relevo, Clara, aos 18 anos, com um gesto audaz, inspirado pelo profundo desejo de seguir a Cristo e pela admiração por Francisco, deixou a casa paterna e, em companhia de uma amiga sua, Bona di Guelfuccio, uniu-se secretamente aos frades menores junto da pequena igreja da Porciúncula. Era a tarde de Domingo de Ramos de 1211. Na comoção geral, realizou-se um gesto altamente simbólico: enquanto seus companheiros tinham nas mãos tochas acesas, Francisco cortou-lhe os cabelos e Clara vestiu o hábito penitencial. A partir daquele momento, tornava-se virgem esposa de Cristo, humilde e pobre, e a Ele totalmente se consagrava. Como Clara e suas companheiras, inumeráveis mulheres no curso da história ficaram fascinadas pelo amor de Cristo que, na beleza de sua Divina Pessoa, preencheu seus corações. E a Igreja toda, através da mística vocação nupcial das virgens consagradas,  demonstra aquilo que será para sempre: a Esposa bela e pura de Cristo.

Em uma das quatro cartas que Clara enviou a Santa Inês de Praga, filha do rei da Bohemia, que queria seguir seus passos, ela fala de Cristo, seu amado esposo, com expressões nupciais, que podem surpreender, mas que comovem: “Amando-o, és casta, tocando-o, serás mais pura, deixando-se possuir por ele, és virgem. Seu poder é mais forte, sua generosidade, mais elevada, seu aspecto, mais belo, o amor mais suave e toda graça. Agora tu estás acolhida em seu abraço, que ornou teu peito com pedras preciosas… e te coroou com uma coroa de ouro gravada com o selo da santidade” (Lettera prima: FF, 2862).

Sobretudo no início de sua experiência religiosa, Clara teve em Francisco de Assis não só um mestre a quem seguir os ensinamentos, mas também um amigo fraterno. A amizade entre estes dois santos constitui um aspecto muito belo e importante. Efetivamente, quando duas almas puras e inflamadas do mesmo amor por Deus se encontram, há na amizade recíproca um forte estímulo para percorrer o caminho da perfeição. A amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados que a Graça divina purifica e transfigura. Como São Francisco e Santa Clara, outros santos vivenciaram uma profunda amizade no caminho para a perfeição cristã, como São Francisco de Sales e Santa Giovanna de Chantal. O próprio São Francisco de Sales escreve: “é belo poder amar na terra como se ama no céu, e aprender a amar-nos neste mundo como faremos eternamente no outro. Não falo aqui de simples amor de caridade, porque este devemos tê-lo todos os homens; falo do amor espiritual, no âmbito do qual, duas, três, quatro ou mais pessoas compartilham devoção, afeto espiritual e tornam-se realmente um só espírito” (Introduzione alla vita devota III, 19).

Após ter transcorrido um período de alguns meses em outras comunidades monásticas, resistindo às pressões de seus familiares que no início não aprovavam sua escolha, Clara se estabeleceu com suas primeiras companheiras na igreja de São Damião, onde os frades menores tinham preparado um pequeno convento para elas. Nesse mosteiro, viveu durante mais de quarenta anos, até sua morte, ocorrida em 1253. Chegou-nos uma descrição de primeira mão de como estas mulheres viviam naqueles anos, nos inícios do movimento franciscano. Trata-se do informe cheio de admiração de um bispo flamengo em visita à Itália, Santiago de Vitry, que afirma ter encontrado um grande número de homens e mulheres, de toda classe social, que, “deixando tudo por Cristo, escapavam ao mundo. Chamavam-se frades menores e irmãs menores e são tidos em grande consideração pelo senhor Papa e pelos cardeais… As mulheres… moram juntas em diferentes abrigos não distantes das cidades. Não recebem nada; vivem do trabalho de suas mãos. E lhes dói e preocupa profundamente que sejam honradas mais do que gostariam, por clérigos e leigos” (Carta de outubro de 1216: FF, 2205.2207).

Santiago de Vitry tinha captado com perspicácia um traço característico da espiritualidade franciscana, a que Clara foi muito sensível: a radicalidade da pobreza associada à confiança total na Providência divina. Por este motivo, ela atuou com grande determinação, obtendo do Papa Gregório IX ou, provavelmente, já do Papa Inocêncio III, o chamado Privilegium Paupertatis (cfr FF, 3279). Em base a este, Clara e suas companheiras de São Damião não podiam possuir nenhuma propriedade material. Tratava-se de uma exceção verdadeiramente extraordinária em relação ao direito canônico vigente, e as autoridades eclesiásticas daquele tempo o concederam apreciando os frutos de santidade evangélica que reconheciam na forma de viver de Clara e de suas irmãs. Isso demonstra também que nos séculos medievais, o papel das mulheres não era secundário, mas considerável. A propósito disso, é oportuno recordar que Clara foi a primeira mulher da história da Igreja que compôs uma Regra escrita, submetida à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis se conservasse em todas as comunidades femininas que iam se estabelecendo em grande número já em seus tempos, e que desejavam se inspirar no exemplo de Francisco e Clara.

No convento de São Damião, Clara praticou de modo heróico as virtudes que deveriam distinguir cada cristão: a humildade, o espírito de piedade e de penitência, a caridade. Ainda sendo a superiora, ela queria servir em primeira pessoa as irmãs enfermas, submetendo-se também a tarefas muito humildes: a caridade, de fato, supera toda resistência e quem ama realiza todo sacrifício com alegria. Sua fé na presença real da Eucaristia era tão grande que em duas ocasiões se comprovou um fato prodigioso. Só com a ostensão do Santíssimo Sacramento, afastou os soldados mercenários sarracenos, que estavam a ponto de agredir o convento de São Damião e de devastar a cidade de Assis.

Também esse episódio, como outros milagres, dos quais se conservava memorial, levaram o Papa Alexandre IV a canonizá-la só dois anos depois de sua morte, em 1255, traçando um elogio a ela na Bula de canonização, onde lemos: “Quão vívida é a força desta luz e quão forte é a claridade desta fonte luminosa. Na verdade, esta luz estava fechada no esconderijo da vida de clausura, e fora irradiava esplendores luminosos; recolhia-se em um pequeno monastério, e fora se expandia por todo vasto mundo. Guardava-se dentro e se difundia fora. Clara, de fato, se escondia; mas sua vida se revelava a todos. Clara calava, mas sua fama gritava” (FF, 3284). E é precisamente assim, queridos amigos: são os santos que mudam o mundo para melhor, transformam-no de forma duradoura, injetando-lhe as energias que só o amor inspirado pelo Evangelho pode suscitar. Os santos são os grandes benfeitores da humanidade!

A espiritualidade de Santa Clara, a síntese de sua proposta de santidade está recolhida na quarta carta a Santa Inês de Praga. Santa Clara utiliza uma imagem muito difundida na Idade Média, de ascendências patrísticas, o espelho. E convida sua amiga de Praga a se olhar no espelho da perfeição de toda virtude, que é o próprio Senhor. Escreve: “feliz certamente aquela a quem se lhe concede gozar desta sagrada união, para aderir com o profundo do coração [a Cristo], àquele cuja beleza admiram incessantemente todas as beatas multidões dos céus, cujo afeto apaixona, cuja contemplação restaura, cuja benignidade sacia, cuja suavidade preenche, cuja recordação resplandece suavemente, a cujo perfume os mortos voltarão à vida e cuja visão gloriosa fará bem-aventurados todos os cidadãos da Jerusalém celeste. E dado que ele é esplendor da glória, candura da luz eterna e espelho sem mancha, olhe cada dia para este espelho, ó rainha esposa de Jesus Cristo, e perscruta nele continuamente teu rosto, para que possas te adornar assim toda por dentro e por fora… neste espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade” (Quarta carta: FF, 2901-2903).

Agradecidos a Deus que nos dá os santos, que falam ao nosso coração e nos oferecem um exemplo de vida cristã a imitar, gostaria de concluir com as mesmas palavras de benção que Santa Clara compôs para suas irmãs e que ainda hoje as Clarissas, que desempenham um precioso papel na Igreja com sua oração e com sua obra, custodiam com grande devoção. São expressões das que surge toda a ternura de sua maternidade espiritual: “Bendigo-vos em minha vida e depois de minha morte, como posso e mais de quanto posso, com todas as bênçãos com as que o Pai de misericóridas abençoa e abençoará no céu e na terra seus filhos e filhas, e com as quais um pai e uma mãe espiritual abençoa e abençoará seus filhos e filhas espirituais. Amém” (FF, 2856).

[Traduzido por ZENIT. Ao final da audiência, o Papa saudou os peregrinos em diferentes idiomas. Estas foram suas palavras em português:]

Clara de Assis foi um verdadeiro clarão luminoso que brilhou na Idade Média, sendo uma das santas mais amadas pelo povo cristão. Seu profundo desejo de seguir Cristo e sua amizade fraterna e grande admiração por São Francisco de Assis a inspirou a deixar a vida aristocrática e rica da sua casa paterna para consagrar-se inteiramente a Cristo, pobre e humilde. Temos aqui um exemplo de como a amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados, que a graça divina purifica e transfigura. Decidida a viver uma pobreza radical associada com uma confiança total na providência divina, conseguiu obter um privilégio papal para que, no seu convento de São Damião, ninguém possuísse qualquer propriedade material. Brilhou pela prática heróica da virtude da humildade, servindo a todas as irmãs com alegria, e pela sua grande fé na Eucaristia. Pela sua grande fama de santidade, foi canonizada somente dois anos após a sua morte.

* * *

A minha saudação a todos peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente para os grupos vindos do Brasil e para os fiéis da Torreira e da diocese da Guarda, em Portugal. Que a graça de Deus, pela intercessão de Santa Clara, fortaleça a vossa vida para mostrardes a todos a felicidade que é amar Jesus Cristo. De coração, dou-vos a minha Bênção, extensiva às vossas famílias e comunidades.

[© Copyright 2010 – Libreria Editrice Vaticana]

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SETE EXCELÊNCIAS DA BATINA

setembro 13, 2010 Deixe um comentário

Esta breve coleção de textos nos recorda a importância do uniforme sacerdotal, a batina ou hábito talar. Valha outro tanto para o hábito religioso próprio das ordens e congregações. Em um mundo secularizado, da parte dos consagrados não há melhor testemunho cristão que a vestimenta sagrada nos sacerdotes e religiosos.

“SETE EXCELÊNCIAS DA BATINA.”

“Atente-se como o impacto da batina é grande ante a sociedade, que muitos regimes anticristãos a têm proibido expressamente. Isto nos deve dizer algo. Como é possível que agora, homens que se dizem de Igreja desprezem seu significado e se neguem a usá-la?”

Hoje em dia são poucas as ocasiões em que podemos admirar um sacerdote vestindo sua batina. O uso da batina, uma tradição que remonta a tempos antiqüíssimos, tem sido esquecido e às vezes até desprezado na Igreja pós-conciliar. Porém isto não quer dizer que a batina perdeu sua utilidade, se não que a indisciplina e o relaxamento dos costumes entre o clero em geral é uma triste realidade.

A batina foi instituída pela Igreja pelo fim do século V com o propósito de dar aos seus sacerdotes um modo de vestir sério, simples e austero. Recolhendo, guardando esta tradição, o Código de Direito Canônico impõe o hábito eclesiástico a todos os sacerdotes.

Contra o ensinamento perene da Igreja está a opinião de círculos inimigos da Tradição que tratam de nos fazer acreditar que o hábito não faz o monge, que o sacerdócio se leva dentro, que o vestir é o de menos e que o sacerdote é o mesmo de batina ou à paisana.

Sem dúvida a experiência mostra o contrário, porque quando há mais de 1500 anos a Igreja decidiu legislar sobre este assunto foi porque era e continua sendo importante, já que ela não se preocupa com ninharias.

Em seguida expomos sete excelências da batina condensadas de um escrito do ilustre Padre Jaime Tovar Patrón

1ª RECORDAÇÃO CONSTANTE DO SACERDOTE

Certamente que, uma vez recebida a ordem sacerdotal, não se esquece facilmente. Porém um lembrete nunca faz mal: algo visível, um símbolo constante, um despertador sem ruído, um sinal ou bandeira. O que vai à paisana é um entre muitos, o que vai de batina, não. É um sacerdote e ele é o primeiro persuadido. Não pode permanecer neutro, o traje o denuncia. Ou se faz um mártir ou um traidor, se chega a tal ocasião. O que não pode é ficar no anonimato, como um qualquer. E logo quando tanto se fala de compromisso! Não há compromisso quando exteriormente nada diz do que se é. Quando se despreza o uniforme, se despreza a categoria ou classe que este representa.

2ª PRESENÇA DO SOBRENATURAL NO MUNDO

Não resta dúvida de que os símbolos nos rodeiam por todas as partes: sinais, bandeiras, insígnias, uniformes… Um dos que mais influencia é o uniforme. Um policial, um guardião, é necessário que atue, detenha, dê multas, etc. Sua simples presença influi nos demais: conforta, dá segurança, irrita ou deixa nervoso, segundo sejam as intenções e conduta dos cidadãos.

Uma batina sempre suscita algo nos que nos rodeiam. Desperta o sentido do sobrenatural. Não faz falta pregar, nem sequer abrir os lábios. Ao que está de bem com Deus dá ânimo, ao que tem a consciência pesada avisa, ao que vive longe de Deus produz arrependimento.

As relações da alma com Deus não são exclusivas do templo. Muita, muitíssima gente não pisa na Igreja. Para estas pessoas, que melhor maneira de lhes levar a mensagem de Cristo do que deixar-lhes ver um sacerdote consagrado vestindo sua batina? Os fiéis tem lamentado a dessacralização e seus devastadores efeitos. Os modernistas clamam contra o suposto triunfalismo, tiram os hábitos, rechaçam a coroa pontifícia, as tradições de sempre e depois se queixam de seminários vazios; de falta de vocações. Apagam o fogo e se queixam de frio. Não há dúvidas: o “desbatinamento” ou “desembatinação” leva à dessacralização.

3ª É DE GRANDE UTILIDADE PARA OS FIÉIS

O sacerdote o é não só quando está no templo administrando os sacramentos, mas nas vinte e quatro horas do dia. O sacerdócio não é uma profissão, com um horário marcado; é uma vida, uma entrega total e sem reservas a Deus. O povo de Deus tem direito a que o auxilie o sacerdote. Isto se facilita se podem reconhecer o sacerdote entre as demais pessoas, se este leva um sinal externo. Aquele que deseja trabalhar como sacerdote de Cristo deve poder ser identificado como tal para o benefício dos fiéis e melhor desempenho de sua missão.

4ª SERVE PARA PRESERVAR DE MUITOS PERIGOS

A quantas coisas se atreveriam os clérigos e religiosos se não fosse pelo hábito! Esta advertência, que era somente teórica quando a escrevia o exemplar religioso Pe. Eduardo F. Regatillo, S.I., é hoje uma terrível realidade.

Primeiro, foram coisas de pouca monta: entrar em bares, lugares de recreio, diversão, conviver com os seculares, porém pouco a pouco se tem ido cada vez a mais.

Os modernistas querem nos fazer crer que a batina é um obstáculo para que a mensagem de Cristo entre no mundo. Porém, suprimindo-a, desapareceram as credenciais e a mesma mensagem. De tal modo, que já muitos pensam que o primeiro que se deve salvar é o mesmo sacerdote que se despojou da batina supostamente para salvar os outros.

Deve-se reconhecer que a batina fortalece a vocação e diminui as ocasiões de pecar para aquele que a veste e para os que o rodeiam. Dos milhares que abandonaram o sacerdócio depois do Concílio Vaticano II, praticamente nenhum abandonou a batina no dia anterior ao de ir embora: tinham-no feito muito antes.

5ª AJUDA DESINTERESSADA AOS DEMAIS

O povo cristão vê no sacerdote o homem de Deus, que não busca seu bem particular se não o de seus paroquianos. O povo escancara as portas do coração para escutar o padre que é o mesmo para o pobre e para o poderoso. As portas das repartições, dos departamentos, dos escritórios, por mais altas que sejam, se abrem diante das batinas e dos hábitos religiosos. Quem nega a uma monja o pão que pede para seus pobres ou idosos? Tudo isto está tradicionalmente ligado a alguns hábitos. Este prestígio da batina se tem acumulado à base de tempo, de sacrifícios, de abnegação. E agora, se desprendem dela como se se tratasse de um estorvo?

6ª IMPÕE A MODERAÇÃO NO VESTIR

A Igreja preservou sempre seus sacerdotes do vício de aparentar mais do que se é e da ostentação dando-lhes um hábito singelo em que não cabem os luxos. A batina é de uma peça (desde o pescoço até os pés), de uma cor (preta) e de uma forma (saco). Os arminhos e ornamentos ricos se deixam para o templo, pois essas distinções não adornam a pessoa se não o ministro de Deus para que dê realce às cerimônias sagradas da Igreja.

Porém, vestindo-se à paisana, a vaidade persegue o sacerdote como a qualquer mortal: as marcas, qualidades do pano, dos tecidos, cores, etc. Já não está todo coberto e justificado pelo humilde hábito religioso. Ao se colocar no nível do mundo, este o sacudirá, à mercê de seus gostos e caprichos. Haverá de ir com a moda e sua voz já não se deixará ouvir como a do que clamava no deserto coberto pela veste do profeta vestido com pêlos de camelo.

7ª EXEMPLO DE OBEDIÊNCIA AO ESPÍRITO E LEGISLAÇÃO

Como alguém que tem parte no Santo Sacerdócio de Cristo, o sacerdote deve ser exemplo da humildade, da obediência e da abnegação do Salvador. A batina o ajuda a praticar a pobreza, a humildade no vestiário, a obediência à disciplina da Igreja e o desprezo das coisas do mundo. Vestindo a batina, dificilmente se esquecerá o sacerdote de seu importante papel e sua missão sagrada ou confundirá seu traje e sua vida com a do mundo.

Estas sete excelências da batina poderão ser aumentadas com outras que venham à tua mente, leitor. Porém, sejam quais forem, a batina sempre será o símbolo inconfundível do sacerdócio, porque assim a Igreja, em sua imensa sabedoria, o dispôs e têm dado maravilhosos frutos através dos séculos.

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Carta de Padre Pio a Paulo VI

setembro 13, 2010 Deixe um comentário

Pressentindo a aproximação de sua morte, em 12 de setembro de 1968 Pe Pio escreveu uma carta ao Papa Paulo VI, oferecendo-lhe seu apoio, suas orações e sofrimentos. Do L”Osservatore Romano, jornal oficioso do Vaticano, reproduzo os tópicos principais. A oportunidade foi uma audiência especial concedida pelo Papa aos padres capitulares da Ordem Franciscana.
“Santidade,
Valho-me da oportunidade deste encontro para me unir em espírito aos meus irmãos. E para depor humildemente a vossos pés a minha cordial saudação e dedicação pessoal; meu amor, minha fé e obediência à dignidade daquele a quem o senhor representa na terra.
A Ordem dos Capuchinhos tem-se mantido sempre na linha de frente em sua dedicação amorosa, na fidelidade e na obediência à Santa Sé. Em minha oração peço a Deus que ela continue assim em sua austeridade religiosa profunda e pobreza evangélica. E, enquanto o obedece fielmente a essas regras que formam sua constituição, possa renovar-se em vitalidade e espiritualidade, como pediu o Concílio Vaticano II, a fim de estar sempre mais adequadamente preparada para ir ao encontro de muitas necessidades da Mãe Igreja, de acordo com a orientação de Vossa Santidade.

Sei bem das profundas aflições que angustiam vosso coração nestes dias relativamente aos novos rumos da Igreja, à paz do mundo e as múltiplas necessidades dos povos. Mas sobretudo pela falta de odediência de alguns católicos a respeito dos esclarecedores ensinamentos que V Santidade, com o auxílio do Espírito Santo, nos tem dado em nome de Deus.
Ofereço-vos minhas orações e sofrimentos a cada dia,atenção insignificante mas sincera do último de vosso filhos, a fim de que o senhor vos reconforte com sua graça para prosseguir no caminho reto e penoso da defesa daquelas verdades eternas, que permanecem imutáveis num mundo em evolução.
Igualmente, em nome de meus filhos espirituais e dos grupos de oração, vos agradeço pela posição clara e decisiva que nos transmitistes, especialmente na última encíclica Humanae Vitae, e reafirmo a minha fé e a minha obediência incondicional às vossas iluminadas diretrizes.
Digne-se o Senhor conceder o triunfo à verdade e a paz a sua Igreja; a tranquilidade a todos os povos, saúde e prosperidade a V Santidade, a fim de que, dissipadas essas nuvans passageiras, o Reino de Deus triunfe nos corações, graças a vossa obra apostólica de supremo Pastor da cristandade.
Prostrado a vossos pés, peço-vos que me abençoeis, bem como aos meus confrades, aos meus filhos espirituais, aos grupos de oração, aos meus doentes e a todas as iniciativas do bem que, em nome de Jesus, procuraamos arduamente promover.
De Vossa Sentidade, filho obediente
(assinado) P.Pio (capuchinho)
Aos 12 de setembro de 1968
San Giovanni Rotondo.
(do livro de Clarice Bruno, Caminhando com Padre Pio – Ed Myrian)

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